A Ilusão de Pensar Sem Corpo

A inteligência surge frequentemente associada à ideia de complexidade. Aquilo que parece complexo tende a ser interpretado como profundo, e aquilo que opera de forma rápida e eficaz tende a ser descrito como inteligente. No entanto, importa distinguir entre complexidade e complicação. A complexidade pertence aos sistemas vivos, onde múltiplos processos se articulam de forma dinâmica e interdependente. A complicação, por sua vez, pode ser construída artificialmente, através da acumulação de inúmeras operações, com as correspondentes regras e as indispensáveis camadas técnicas. Neste sentido, um sistema pode ser altamente complicado sem possuir qualquer experiência de si mesmo.

Uma comparação simples ajuda a clarificar esta distinção. Uma maionese constitui um sistema complexo. Resulta de uma emulsão onde os elementos deixam de existir de forma separável e passam a integrar uma nova consistência. Pequenas variações alteram o resultado, e o processo importa tanto quanto os ingredientes. Um telemóvel, pelo contrário, constitui um sistema complicado. É composto por inúmeras partes organizadas segundo funções definidas. Pode ser difícil de construir ou reparar, mas as suas componentes mantêm identidade e podem ser separadas. Esta diferença torna-se ainda mais evidente quando se observa a reversibilidade: uma maionese, uma vez formada, dificilmente regressa ao estado inicial; um telemóvel pode ser desmontado, mesmo que com grande dificuldade. Esta distinção evidencia dois modos distintos de organização: um baseado na transformação das relações entre elementos, outro na articulação de partes com funções definidas.

Esta distinção ajuda a situar a actual e duvidosa designação de inteligência artificial: algo que atinge níveis extraordinários de complicação, operando sobre grandes volumes de dados, mas permanece fora da complexidade própria da vida sentida. Talvez o equívoco mais persistente do nosso tempo resida precisamente aqui: tomar a sofisticação operacional por evidência de interioridade.

António Damásio, em A Inteligência Natural, oferece um ponto de referência claro. A consciência emerge num organismo que sente, que regula o seu equilíbrio interno e, por isso, reconhece a sua própria condição. A mente não se reduz a processamento de informação; ela constitui uma forma de vida que se sente a si mesma. A inteligência, nesse sentido, está ligada à capacidade de manter a vida e de orientar a acção a partir dessa experiência.

A partir daqui, a questão da inteligência artificial torna-se menos imprecisa, deixando de fazer sentido perguntar se a máquina é dotada de consciência, e tornando-se mais pertinente compreender o que fazemos quando a utilizamos. Importa também precisar o contexto: trata-se da inteligência artificial actual, difundida, integrada em plataformas, serviços e infraestruturas que participam activamente na organização da vida quotidiana. Este dispositivo tem um elevado grau de afectação nas nossas decisões, influencia escolhas, orienta comportamentos e, em certos contextos, pode operar de forma autónoma em processos de grande importância. Esta condição exige clareza sobre o modo como funciona — e sobre quem define os seus critérios, os seus limites e as suas finalidades.

A questão torna-se então inevitável: quem define esses critérios? Quem decide o que deve ser optimizado e/ou excluído? A inteligência artificial apresenta-se frequentemente como instrumento, mas opera dentro de infraestruturas que concentram poder técnico, económico e político.

Os sistemas que organizam a informação respondem a pedidos e moldam as condições em que esses pedidos se tornam possíveis. Aquilo que é visível, recomendável ou relevante resulta de decisões anteriores, inscritas em modelos, dados e interesses que permanecem implícitos.
Delegar, neste contexto, implica uma relação com esse enquadramento. O utilizador pode reconhecê-lo, questioná-lo e escrutiná-lo, mas a eficácia do sistema tende, ainda assim, a reduzir a visibilidade desse enquadramento, tornando esse exercício mais exigente.

O ser humano sempre procurou delegar funções. Essa tendência atravessa toda a história técnica. A primeira forma de martelo não foi um objecto construído, mas uma pedra escolhida pela sua capacidade de concentrar e dirigir a força do corpo sobre outra matéria. O fogo permite transformar a matéria para além das limitações do corpo. Esse princípio de concentração da força torna a acção mais eficaz e controlada. A escrita fixa palavras e cria uma memória exterior, permitindo que o pensamento se prolongue no tempo. Cada uma destas invenções transfere uma função para fora do organismo, ampliando a capacidade de agir. 

Platão, no Fedro (Phaedrus), já reconhecia que a escrita altera a relação com a memória. Aquilo que antes precisava de ser lembrado passa a poder ser consultado. A técnica não elimina a memória, mas transforma a forma como ela é exercida.

A hoje designada inteligência artificial inscreve-se nesta continuidade. Em vez de delegar apenas a memória ou a força, delega a organização de relações entre informações. Sistemas contemporâneos classificam, comparam, antecipam e sugerem. Operações que exigiam tempo e esforço humano passam a ser executadas de forma rápida e sistemática.

Matteo Pasquinelli, em The Eye of the Master, mostra que esta capacidade resulta da formalização de práticas humanas. A inteligência da máquina deriva da captura de padrões de comportamento e de trabalho que foram previamente vividos. A máquina organiza aquilo que já foi experimentado por outros.

A noção de delegação torna este processo mais claro. Delegar significa transferir uma função para um sistema que a executa. Quando se escreve, delega-se a retenção da memória. Quando se recorre à inteligência artificial, delega-se a organização de relações e a exploração de possibilidades. Este princípio não é novo. Quando alguém se entrega a um tratamento médico, delega diagnóstico e intervenção. Quando entra num sistema de ensino, delega processos de validação e orientação. Quando utiliza um sistema financeiro, aceita decisões automatizadas sobre crédito ou risco. Quando embarca num avião, confia em sistemas técnicos que operam com elevado grau de autonomia. A delegação atravessa múltiplas esferas da vida.

A delegação nunca constitui uma operação neutra. Sempre que uma função passa para um sistema, ocorre também uma transformação no próprio sujeito que delega: as capacidades não exercidas enfraquecem e, com o tempo, deixam de existir como prática viva. A externalização da memória altera a forma como se recorda, a automatização do cálculo transforma o modo de decidir e a orientação mediada modifica a forma como se percorre o mundo, passando estas ferramentas a moldar aquilo que se considera viável e relevante.
Importa então colocar a questão de forma directa: o que se perde quando a delegação se torna sistemática? Que capacidades deixam de ser exercidas? Que formas de atenção se tornam dispensáveis? E, talvez mais decisivo ainda, que tipo de sujeito emerge dessa relação contínua com sistemas que antecipam, sugerem e organizam antes mesmo da experiência se formar?

A delegação amplia a acção e reduz a necessidade de certas competências, que, com o tempo, deixam de existir como prática viva.

Existe, no entanto, um limite constante: a experiência dessa função permanece no corpo que vive. Um texto guarda informação, mas não recorda. Um sistema médico decide, mas não sente a doença. Um sistema financeiro calcula, mas não experimenta a consequência. Um sistema de inteligência artificial sugere respostas, mas não vive aquilo que produz.

Evgeny Morozov, em To Save Everything, Click Here, alerta para o risco de transformar a delegação numa lógica dominante. A tendência contemporânea consiste em tratar problemas humanos como tarefas técnicas, passíveis de optimização através de dados e algoritmos.

Em The Net Delusion, evidencia-se que essa lógica não executa apenas funções, mas altera o contexto em que essas funções são compreendidas. A tecnologia reorganiza o campo onde a decisão ocorre — frequentemente de forma invisível para aqueles que nela participam.

A inteligência artificial introduz uma forma particular de delegação. Intervém no momento em que se pensa e se decide. Ao sugerir caminhos, ao ordenar informação e ao antecipar cenários, participa na construção do espaço onde a consciência actua. Não substitui essa consciência, mas condiciona as suas condições de exercício — e fá-lo através de infraestruturas técnicas e institucionais que permanecem, na maior parte dos casos, fora do alcance de quem as utiliza. Quanto mais delegamos, menos sabemos onde termina a nossa decisão e começa a decisão do sistema.

A semelhança entre a linguagem produzida por uma máquina e a linguagem humana pode sugerir interioridade. No entanto, essa semelhança resulta da reutilização de formas que emergiram de experiências vividas. A presença dessas formas não implica a existência de experiência.

O humano continua no centro da experiência. Continua a sentir, a avaliar e a decidir. Continua a depender de um corpo que regula a sua existência. Nenhuma técnica entra directamente nesse circuito.

A inteligência artificial pode, assim, ser entendida como uma ferramenta que amplifica a capacidade de organizar informação. Ela intensifica uma tendência antiga: a delegação de funções. Essa amplificação não altera o ponto essencial: delegamos operações, e continuamos a viver aquilo que delegamos.

A distinção entre complicação técnica e complexidade vivida permite manter esta clareza. A máquina pode tornar-se cada vez mais sofisticada. A experiência continua a pertencer aos seres que vivem. E a vida mantém uma densidade que resiste às estratégias de simplificação que continuamente procuramos aplicar.

Bibliografia

Damásio, A. (2024). A inteligência natural. Temas e Debates.

Morozov, E. (2011). The net delusion: The dark side of internet freedom. PublicAffairs.

Morozov, E. (2013). To save everything, click here: The folly of technological solutionism. PublicAffairs.

Pasquinelli, M. (2023). The eye of the master: A social history of artificial intelligence. Verso.

Platão. (2000). Fedro (M. C. Andrade, Trad.). Fundação Calouste Gulbenkian.

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