O presente vive obcecado com o novo. A cada instante surgem anúncios de tecnologias “revolucionárias”, produtos “inteligentes”, plataformas “transformadoras”. A linguagem da inovação domina a cultura, a economia e o quotidiano — está inscrita nos objectos que usamos, nas interfaces que tocamos, nas promessas que nos vendem. E, no entanto, permanece uma sensação inquietante, quase subterrânea: apesar de tudo isto, o mundo parece estranhamente igual a si mesmo.
Onde está o futuro que nos prometeram? Onde estão as cidades aéreas, os robôs domésticos, as energias limpas e abundantes, a libertação do trabalho, a vida reorganizada em torno da criatividade e do tempo livre? Em vez disso, temos ecrãs mais finos, aplicações mais rápidas, algoritmos mais discretos — e problemas estruturais que se agravam: crise climática, precariedade, vigilância, desigualdade, esgotamento colectivo.
Esta reflexão parte dessa dissonância. Propõe-se explorar a hipótese de que aquilo que hoje chamamos “inovação” opera, na verdade, como um mecanismo de contenção: uma tecnologia do presente para impedir o surgimento de futuros verdadeiramente diferentes. Mais do que progresso, talvez o que vivamos seja uma forma sofisticada de imobilismo com aparência de movimento — uma gestão contínua das expectativas e dos desejos, cuidadosamente calibrada para manter intactas as estruturas dominantes.
Ao interrogar esta condição — entre euforia tecnológica e estagnação civilizacional — procura-se compreender não só como aqui chegámos, mas também se ainda é possível resgatar o futuro como horizonte de transformação e não apenas de actualização.
O futuro como simulação
Apesar de se situarem em campos políticos radicalmente distintos, David Graeber — antropólogo e activista anarquista — e Peter Thiel — empresário libertário e investidor tecnológico — partilham uma perplexidade de base: algo correu mal com o futuro. Ambos detectam, embora a partir de diagnósticos diferentes, uma estagnação estrutural disfarçada de progresso. E ambos se interrogam sobre o que impediu a realização de promessas outrora plausíveis — colonização espacial, energia ilimitada, transformações civilizacionais profundas.
Graeber (2012) argumenta que, desde os anos 1970, assistimos a uma retirada do investimento em tecnologias de ruptura em favor de formas de inovação que reproduzem o existente: sistemas de vigilância, redes de gestão, simulações digitais. A promessa do futuro foi substituída por um regime de manutenção. A sua hipótese é que o neoliberalismo — apesar da retórica da liberdade de mercado — inaugurou uma era de burocracia tecnocrática, onde a função da inovação não é libertar, mas reforçar o controlo social. A maioria das tecnologias contemporâneas, segundo Graeber, serve para gerir, monitorizar e regular — não para imaginar radicalmente. É assim que “voar para Marte” deu lugar a “formular um pedido de visto online”.
Já Thiel (2011), numa leitura diametralmente oposta no plano ideológico, sustenta que o bloqueio do futuro se deve à medocracia democrática e ao conformismo institucional. Na sua perspectiva, o progresso é travado por uma cultura política e académica que evita o risco, penaliza o génio individual e promove a segurança regulada em detrimento da disrupção criativa. Para Thiel, a inovação depende da existência de fundadores visionários — figuras capazes de romper com o consenso — e o actual sistema liberal tende a extingui-los em nome da estabilidade.
Curiosamente, onde Graeber vê o problema numa aliança entre capital financeiro e burocracia estatal, Thiel vê na própria governamentalidade democrática o obstáculo principal. Mas a convergência é notável: ambos denunciam uma tecnocracia do presente que administra, mas não transforma; ambos reconhecem que a sociedade contemporânea abdica da ambição visionária em troca de conforto, vigilância e previsibilidade.
A divergência fundamental está na resposta. Graeber propõe uma renovação da imaginação colectiva, assente em valores de justiça social e autogestão. Thiel aposta na excepção individual — o fundador solitário, o rebelde que contorna o sistema. Mas, no âmago de ambos, está uma pergunta comum: como é que uma civilização tão avançada tecnologicamente se tornou tão tímida perante o futuro?
O realismo capitalista e a crise do imaginário
Se a inovação tecnológica parece hoje operar dentro de um espectro estreito — actualizando, mas raramente revolucionando — isso deve-se, em parte, ao que se poderá chamar um bloqueio do imaginário colectivo. A capacidade de projectar futuros alternativos, radicalmente diferentes do presente, foi profundamente debilitada. A própria ideia de utopia tornou-se risível ou suspeita, confinada à ficção científica ou ao entretenimento distópico. Esta mutação cultural foi descrita com precisão por Fredric Jameson, ao afirmar que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” (Jameson, 2005, p. xii).
Jameson interpreta esta condição como uma consequência da hegemonia cultural do capitalismo tardio. A lógica de mercado não apenas domina os sistemas económicos, como coloniza a própria imaginação, reduzindo a criatividade a formas de consumo simbólico. Mesmo os produtos culturais que se dizem visionários tendem a reproduzir as estruturas do presente, projectando apenas versões ampliadas ou colapsadas do que já existe. Assim, o futuro torna-se uma extensão do agora — mais rápido, mais conectado, mais catastrófico — mas raramente outro.
Esta ideia é retomada e aprofundada por Mark Fisher (2009), que cunha o termo “realismo capitalista” para descrever o sentimento generalizado de que não há alternativa viável ao sistema actual. Para Fisher, o realismo capitalista infiltra-se não só na política e na economia, mas também na educação, na saúde, na cultura e — poderíamos acrescentar — no design e na tecnologia. Os problemas deixaram de ser resolvidos com imaginação estrutural e passaram a ser “geridos” com soluções de curto prazo, muitas vezes baseadas na optimização digital.
Esta é, aliás, uma das grandes ironias do presente: a era mais tecnologicamente equipada da história parece ter perdido a capacidade de pensar em grande escala, de imaginar transformações civilizacionais, de sonhar além dos limites impostos pelo mercado. No lugar das utopias sociais, surgem visões distópicas e aceleracionistas; no lugar da política, a gestão algorítmica; no lugar do desejo de futuro, o medo do colapso. O que resta da imaginação é, muitas vezes, canalizado para aumentar a eficiência do que já existe, não para inventar formas de vida radicalmente novas.
Neste contexto, a inovação tecnológica actua como uma encenação de possibilidade: enquanto os dispositivos se multiplicam e os ecrãs se renovam, os horizontes de transformação social contraem-se. O futuro deixou de ser um campo de batalha simbólico e político — passou a ser um produto de marketing.
Arquivos do futuro perdido: invenções inacabadas e promessas abandonadas
Nem sempre o futuro foi tão tímido. Houve um tempo — breve, mas intensamente visionário — em que imaginar o porvir era um gesto de audácia. Durante as décadas centrais do século XX, a técnica e a imaginação pareciam aliadas: projectavam-se cidades aéreas, colonizações interplanetárias, máquinas pensadas não apenas para resolver problemas, mas para reinventar as condições da existência. O futuro era uma ambição cultural partilhada, expressa em objectos reais, protótipos, infraestruturas, gestos de design. Era, sobretudo, um espaço de excesso simbólico e risco político. Hoje, muitas dessas promessas repousam em museus ou vídeos de arquivo. São fósseis do que já foi possível pensar — vestígios de um tempo em que a inovação ousava romper com o presente, em vez de o aperfeiçoar.
O avião supersónico Concorde é um desses vestígios. Lançado em 1969, ligava Paris a Nova Iorque em pouco mais de três horas, rasgando o céu à velocidade de Mach 2. Não era apenas um meio de transporte: era a encarnação da aceleração moderna, da conquista do tempo. Mas foi descontinuado em 2003. Os custos, o ruído, os riscos, as faltas de rentabilidade selaram o seu destino. Paradoxalmente, voar entre continentes hoje demora mais do que há trinta anos. O Concorde tornou-se símbolo de um futuro que recuou no tempo: um futuro possível, mas abandonado.
O mesmo se pode dizer do Citroën DS, apresentado em 1955. Com o seu design aerodinâmico, suspensão hidráulica e estética espacial, foi descrito por Roland Barthes como uma “catedral sobre rodas”. Representava uma fusão rara entre vanguarda técnica e linguagem simbólica. Era um automóvel que não apenas transportava, mas afirmava uma visão de mundo. Hoje, os carros são plataformas digitais sobre rodas: silenciosos, eficientes, ligado em rede — mas esvaziados de ambição simbólica. O design automóvel cedeu lugar à interface. Já não projecta um outro tempo: refina o presente em replicações miméticas de um só modelo.
A mesma lógica se aplica aos carros voadores. Figura recorrente da ficção científica e da imaginação urbana moderna, foram prometidos por engenheiros, revistas e publicidades desde os anos 1940. Sempre “a dez anos de distância”. No entanto, permanecem como protótipos, confinados ao luxo tecnológico, a experiências de nicho ou a promessas de capital de risco. O que outrora era imaginado como mobilidade emancipada tornou-se espectáculo corporativo — ou pior: uma extensão da desigualdade vertical.
E que dizer da colonização espacial? Nos anos 1960, previa-se a construção de bases lunares permanentes nos anos 1990. A corrida espacial, ainda que motivada por interesses geopolíticos, desenhava uma narrativa épica de expansão da humanidade. Hoje, a presença no espaço é dominada por corporações privadas como a SpaceX ou a Blue Origin. O sonho interplanetário subsiste, mas deslocou-se do domínio público para o capital privado. O espaço tornou-se mercado. O cosmos, uma extensão da propriedade.
Até mesmo a casa do futuro — promessa modernista por excelência — sofreu mutação simbólica. Imaginava-se uma habitação sensível, automatizada, libertadora. Hoje, o que temos são assistentes de voz que ouvem tudo, electrodomésticos que enviam dados, sensores que não desligam. A casa inteligente tornou-se a casa vigiada. Em vez de liberdade doméstica, temos logística comportamental.
Estes casos não devem ser lidos com nostalgia, mas como sintomas de uma viragem cultural profunda. Eles mostram que o problema da inovação contemporânea não é falta de tecnologia, mas de imaginação colectiva. Mostram que já fomos capazes de arriscar, sonhar alto, desafiar limites. Como afirma Fredric Jameson, o que hoje está em causa não é a técnica, mas a capacidade simbólica e política de a projectar para fora do presente (Jameson, 2005). Estes arquivos do futuro perdido funcionam, assim, como monumentos a uma utopia desactivada — e como convite a reactivá-la sob outras condições.
O que mudou, portanto, não foi a nossa capacidade de inventar, mas o sistema que enquadra a invenção. A partir dos anos 1980, consolidou-se uma nova gramática da inovação: menos rupturas, mais optimização; menos risco, mais previsibilidade. O futuro deixou de ser um território de invenção para se tornar um exercício de gestão contínua. Esta mudança tem causas múltiplas: a financeirização da economia, que passou a favorecer tecnologias de retorno rápido e baixo risco (Morozov, 2013); a ascensão da lógica neoliberal, que substituiu a política pela administração, e o sonho pela métrica (Graeber, 2012); o desencantamento cultural descrito por Jameson e Fisher, que inibiu a imaginação utópica e naturalizou o presente como inevitável (Fisher, 2009); e, finalmente, o papel do design, que se especializou em suavizar o existente em vez de o perturbar — mediando interfaces em vez de futuros.
Não desistimos do futuro por impossibilidade técnica. Desistimos por medo, por cálculo, por excesso de realismo. E talvez porque imaginar o impossível seja, no fundo, mais perigoso — e mais revolucionário — do que todas as tecnologias que já criámos.
Inovação como ilusão
Vivemos rodeados de dispositivos que se apresentam como soluções: aplicações que prometem optimizar o tempo, plataformas que oferecem conveniência, sistemas que antecipam desejos. A linguagem da inovação tornou-se inseparável da linguagem da eficiência. Tudo é mais “inteligente”: as casas, os carros, os relógios, até os caixotes do lixo. Mas o que significa, afinal, esta inteligência? E a quem serve?
Evgeny Morozov (2013) descreve este fenómeno como solucionismo tecnológico — a crença de que todos os problemas sociais, políticos e existenciais podem (e devem) ser resolvidos através de intervenções técnicas. Problemas como o congestionamento urbano, a solidão, a obesidade, a corrupção ou o consumo energético são reconvertidos em questões de design e engenharia: algoritmos, interfaces, sensores, dashboards. Esta conversão é ideológica, pois despolitiza os problemas e desvia o olhar das suas causas estruturais, oferecendo em troca soluções que mantêm intacto o quadro sistémico.
O design desempenha aqui um papel estratégico. Em vez de problematizar o contexto, o design solucionista concentra-se em aperfeiçoar a experiência do utilizador. O objectivo já não é questionar o funcionamento das plataformas, mas torná-las mais intuitivas, “amigáveis” e atraentes. Uma aplicação para gerir ansiedade não interroga as fontes estruturais de stress social — limita-se a suavizar os sintomas. Um sistema de pontos de carbono não questiona o modelo económico extractivista — transforma-o num jogo de microdecisões personalizadas. Assim, o design contemporâneo opera muitas vezes como técnica de amortecimento: amortece o choque, simula a resposta, evita o confronto.
Zuboff (2019) aprofunda esta crítica ao revelar como, na era digital, a tecnologia se tornou um mecanismo de extracção comportamental. A inovação já não se mede apenas pela funcionalidade técnica, mas sobretudo pela capacidade de prever e modular o comportamento humano. Os produtos “inteligentes” são apenas a face visível de infraestruturas que recolhem, tratam e comercializam dados. Neste contexto, o design de interface torna-se o verniz estético da vigilância. A experiência “fluida” e “personalizada” serve para ocultar a assimetria: nós tocamos, deslizamos, escolhemos — mas estamos a ser continuamente traduzidos em dados, correlacionados, vendidos.
Mesmo o campo do design especulativo, que se apresenta como crítica e alternativa, não escapa totalmente a este regime. Ao apresentar cenários distópicos ou futuros provocadores, corre o risco de normalizar a distopia como horizonte inevitável, ou de transformar o gesto especulativo numa estética de galeria, inofensiva para o sistema que pretende desafiar. Ao simular futuros possíveis sem intervir nas lógicas materiais do presente, o design especulativo pode tornar-se uma espécie de alívio conceptual — um espaço seguro para imaginar sem transformar.
Neste contexto, o que é o design? Não apenas a forma dos objectos, mas a forma da experiência e da relação. O design estrutura o modo como interagimos com o mundo e, sobretudo, com o tempo: acelera, substitui, dissolve. Ao apresentar o futuro como uma sequência de actualizações — versões 2.0, 3.1.5, beta, pro — o design participa activamente na ilusão de movimento, enquanto os sistemas profundos se mantêm estáveis ou até se tornam mais opacos.
A ilusão de inovação reside, pois, na conjugação de três elementos: tecnologia que promete resolver, design que encena progresso e narrativas que evitam o conflito. Esta combinação sustenta um presente administrado, onde o futuro já não é um horizonte de disputa, mas uma simulação contínua da melhoria — polida, intuitiva, mas profundamente despolitizada.
O que seria uma inovação libertadora?
Se, como vimos, a inovação contemporânea tende a reforçar os contornos do sistema em vez de os desafiar, a questão que se impõe é: como poderia ser uma inovação verdadeiramente libertadora? Que critérios, que orientações, que gramáticas seriam necessárias para imaginar o novo não como optimização da ordem existente, mas como abertura para formas de vida radicalmente diferentes?
Uma possível resposta começa por recusar a ideia de progresso como linha contínua e unidireccional — mais rápido, mais eficiente, mais produtivo. Autores como Ivan Illich (1973) e Lewis Mumford (1934/1963) já haviam identificado, ainda no século XX, os perigos de um modelo de inovação assente na expansão ilimitada da técnica. Illich, em particular, propôs o conceito de tecnologias conviviais: ferramentas desenhadas para potenciar a autonomia e a interdependência das comunidades humanas, em vez de as tornar dependentes de sistemas técnicos que não compreendem ou controlam. Uma tecnologia convivial não visa escalar, mas enraizar; não extrai, fortalece laços; não simula autonomia, cultiva-a.
Mumford, por sua vez, distinguiu entre duas trajectórias técnicas: a megamáquina — sistema de poder centralizado, técnico e hierárquico — e a tecnologia orgânica, centrada nas necessidades humanas e na integração ecológica. Para Mumford, o verdadeiro progresso reside na reorientação ética e política da técnica, e não no seu desenvolvimento quantitativo.
Estas ideias ganham nova vida nas propostas contemporâneas de autores como Donna Haraway (2016), que recusa tanto o apocalipse como a utopia tecnológica clássica. Haraway propõe um outro tipo de relação com o futuro: não o futuro como destino ou salvação, mas como espaço de cuidado, recomposição e responsabilidade partilhada. A inovação, aqui, deixa de ser um vector vertical de domínio e torna-se uma prática horizontal de convivência — com outras espécies, com o planeta, com os fantasmas do passado e os riscos do presente.
Neste horizonte, o design não desaparece — transforma-se. Deixa de ser apenas um instrumento de mediação entre utilizador e sistema, e passa a ser uma ferramenta de worldbuilding. O design libertador não visa convencer ou seduzir, mas abrir possibilidades, produzir estranhamento, cultivar novos imaginários. Em vez de desenhar para “melhorar a experiência”, desenha para expor as condições da experiência; em vez de simplificar, complica criativamente. Pode ser modesto — um forno comunitário solar, uma interface que revela os fluxos energéticos ocultos de uma app — ou especulativo — um dispositivo fictício que reconfigura relações entre espécies. O seu valor não está na eficácia, mas na capacidade de deslocar o pensamento.
Trata-se, em suma, de devolver ao design e à inovação o seu potencial político e poético. Retirá-los do campo fechado da gestão de expectativas e reinscrevê-los no terreno aberto da transformação — onde imaginar é, também, intervir. Onde criar não é apenas construir objectos, mas reabrir o tempo.
A urgência de repolitizar o futuro
Ao longo deste texto, procurámos desmontar a ilusão contemporânea de que vivemos em permanente aceleração tecnológica. O que se revelou foi um paradoxo: apesar da omnipresença da inovação — nos dispositivos, nos discursos, no design —, o nosso horizonte colectivo parece encurtar-se. O futuro já não nos convoca; limita-se a actualizar-se. E aquilo que outrora se projectava como possibilidade emancipadora aparece agora como manutenção disfarçada da ordem vigente.
Apesar da multiplicação de interfaces, dispositivos e algoritmos, algo permanece suspenso: a própria ideia de futuro como possibilidade de ruptura. O presente tornou-se impermeável à transformação estrutural, como se toda a energia criativa tivesse sido canalizada para simular movimento, enquanto a estrutura permanece imóvel. Esta sensação de paralisia não é apenas material — é, antes de tudo, imaginativa (Fisher, 2009; Jameson, 2005). O nosso tempo já não ousa pensar para além de si mesmo; prefere optimizar o que existe a arriscar o que não se conhece.
A crítica torna-se, aqui, vital. Vários autores mostraram como esta estagnação opera por formas subtis de controlo e resignação — pela estetização da gestão, pela linguagem da eficiência, pela normatividade das interfaces (Morozov, 2013; Zuboff, 2019). O mundo é redesenhado para parecer mais rápido, mais cómodo, mais interligado — mas raramente mais livre, mais igual ou mais habitável. E, no entanto, persistem outras vozes que recusam esse feitiço. Que defendem tecnologias enraizadas na vida comum, não na acumulação (Illich, 1973; Mumford, 1963). Que propõem futuros compostos, entrelaçados, interdependentes — onde inovar significa cuidar, desprogramar, refazer laços (Haraway, 2016).
Vivemos também sob o feitiço de uma outra fantasia: a de que os nossos males estruturais — a morosidade da justiça, a ineficiência hospitalar, a sobrecarga dos serviços públicos — serão corrigidos não por reforma social nem por investimento humano, mas por uma camada de código. A digitalização apresenta-se como solução mágica para a complexidade do mundo: dashboards em vez de médicos, chatbots em vez de cuidadores, algoritmos em vez de julgamento. A burocracia, que outrora era símbolo de rigidez e opacidade, tornou-se uma utopia de eficiência maquinal, onde a promessa de agilidade esconde a corrosão da alteridade.
Exemplos não faltam. No Reino Unido, um sistema automatizado da Previdência Social usava critérios opacos para suspender subsídios a pessoas com deficiência — muitas das quais morreram sem conseguir apelar da decisão algorítmica. Nos Países Baixos, um sistema de IA para deteção de fraude entre beneficiários sociais classificava de forma desproporcionada famílias de origem migrante, levando a deportações, multas e destruição de vidas — até ser considerado ilegal pelo próprio governo. No Canadá, uma aplicação chamada ArriveCAN, supostamente concebida para agilizar entradas durante a pandemia, impedia centenas de viajantes de sair do aeroporto por detectar (erradamente) que não tinham cumprido quarentena, mesmo quando nunca haviam viajado. Já em Portugal, não são raros os casos em que utentes do SNS são obrigados a inscrever-se online para marcar consultas presenciais — num sistema que exclui por completo os que mais dele precisam: os idosos, os sem acesso à internet, os tecnicamente vulneráveis.
Estes exemplos não são exceções: são sintomas de um paradigma que desloca a responsabilidade para interfaces inquestionáveis, substituindo a escuta pelo protocolo e o julgamento ético pela estatística preditiva. O trágico é que tudo isto se apresenta como progresso. Hospitais sem médicos, escolas sem professores, relações mediadas por avatares — tudo isto é vendido como optimização, quando muitas vezes é apenas a automatização da indiferença. Não se trata apenas de falhas técnicas, mas de efeitos sistémicos que desumanizam o erro e tornam o sofrimento uma externalidade aceitável. Mais do que resolver problemas, esta automação compulsiva neutraliza o dissenso, dissolve o inesperado e transforma o mundo num lugar mais fluido, sim — mas também mais frio, mais mudo, mais imune à exceção.
Reabrir o futuro, hoje, talvez não passe por descobrir mais funcionalidades, mas por reaprender a imaginar o que não cabe nos sistemas existentes — e isso é, no mais profundo sentido, um gesto político e poético. Exige cultivar uma imaginação dissidente, capaz de enfrentar a hegemonia do “realismo tecnológico” e do solucionismo com novas formas de relação, de tempo, de escala. A inovação que precisamos não é mais uma aplicação, mas um reposicionamento civilizacional.
É igualmente importante reconhecer que, apesar da crítica à superficialidade da inovação dominante, houve e continua a haver progressos significativos em várias áreas do conhecimento. A medicina registou avanços extraordinários em domínios como a edição genética, a resposta pandémica, as terapias celulares para doenças raras e a medicina personalizada. A utilização da inteligência artificial abriu novas possibilidades no apoio ao diagnóstico e à gestão clínica, mas a sua aplicação acrítica, por vezes opaca e insensível ao contexto humano, tem também revelado riscos de erro, exclusão e desresponsabilização profissional. As ciências climáticas e ambientais desenvolveram modelos complexos de previsão e estratégias sofisticadas de mitigação. E mesmo nas humanidades, assistimos a uma revitalização epistemológica profunda, através de perspectivas, feministas, ecológicas e multiespécie. Estes sinais demonstram que a inovação com impacto transformador é possível — mas frequentemente marginal, subfinanciada, ou capturada pelo mercado antes de amadurecer em mudança estrutural.
Neste cenário, o design assume uma responsabilidade incontornável. Mais do que uma disciplina técnica ou estilística, o design é um dispositivo cultural e político: molda o que se pode imaginar, desejar e considerar viável. É uma gramática do possível. Se o design participou na construção desta estética da estagnação — criando interfaces suaves para sistemas opacos, objectos desejáveis para infraestruturas indesejadas — também pode, e deve, participar na sua desmontagem. Pode deixar de ser um instrumento de gestão para se tornar uma prática especulativa, de dissenso e de cuidado, capaz de reencantar o mundo sem o render apenas à lógica da mercadoria.
Repolitizar o futuro significa devolver-lhe o seu estatuto de campo de disputa: um espaço onde o que ainda não existe pode ser pensado, ensaiado, discutido — e não apenas simulado por algoritmos ou testado em laboratórios corporativos. Significa romper com a narrativa da inevitabilidade técnica e reabrir a possibilidade de outros mundos, outras formas de vida, outras relações com a tecnologia — menos centradas no desempenho, mais fundadas na convivência.
Mais do que imaginar novos gadgets, precisamos de imaginar novos modos de habitar o tempo. Não basta acelerar: é preciso desacelerar onde for necessário, demorar onde houver vida, interromper onde houver dano, e compor onde houver potencial. Isso começa não com mais inovação, mas com outra ideia de inovação — uma que seja capaz de produzir diferença real, partilhável e habitável. Não apenas versões sucessivas do mesmo, mas futuros que, finalmente, voltem a merecer esse nome.
Talvez o futuro comece na prosa, num forno comunitário desenhado para durar cinquenta anos, numa escola sem campainhas, ou num sistema operativo que recusa notificar. Pequenos gestos de desvio, que redesenham o tempo e reencantam o possível e desejável.
Referências
Fisher, M. (2009). Capitalist realism: Is there no alternative? Winchester: Zero Books.
Graeber, D. (2012). Of flying cars and the declining rate of profit. Recuperado de https://davidgraeber.org/articles/of-flying-cars-and-the-declining-rate-of-profit/
Haraway, D. (2016). Staying with the trouble: Making kin in the Chthulucene. Durham: Duke University Press.
Illich, I. (1973). Tools for conviviality. New York: Harper & Row.
Jameson, F. (2005). Archaeologies of the future: The desire called utopia and other science fictions. London: Verso.
Morozov, E. (2013). To save everything, click here: The folly of technological solutionism. New York: PublicAffairs.
Mumford, L. (1963). Technics and civilization (Original work published 1934). New York: Harcourt, Brace & World.
Thiel, P. (2011, 3 de Outubro). The End of the Future. National Review. Recuperado de https://www.nationalreview.com/2011/10/end-future-peter-thiel/
Zuboff, S. (2019). The age of surveillance capitalism: The fight for a human future at the new frontier of power. New York: PublicAffairs.
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