Uma mão com seis dedos surge no ecrã. A textura apresenta-se verosímil, a luz convence, o tom de pele vibra com uma coerência sustentada pelo cálculo. A imagem provoca perturbação pela sua estranheza: o gesto ultrapassa os limites da anatomia, a curvatura dos dedos desafia a proporção, o polegar inclina-se para um lado improvável. Essa figura, gerada por um modelo algorítmico, carrega a marca de uma obsessão ancestral, a vontade de converter em imagem a relação entre corpo e intenção. O erro afirma-se como sinal de um programa civilizacional que transformou a imitação do humano num exercício de precisão técnica.
Desde as grutas paleolíticas, onde o pigmento se depositava sobre a pedra em redor das palmas, a mão define a origem da imagem. Cada marca revelava o contacto directo entre corpo e superfície, uma transferência de matéria que unia gesto e pigmento. Essa ancestralidade prolonga-se até ao Renascimento, momento em que a mão passa a representar a fronteira entre pensamento e matéria. Leonardo desenhava as suas articulações com a exactidão de um cirurgião e a devoção de um teólogo. Dürer elevava as mãos em oração à condição de retrato espiritual. Em ambos, o gesto condensava o que o olhar pressentia e o corpo executava. Mesmo na mais rigorosa perfeição anatómica, emergia sempre uma leve incongruência, um desfasamento entre a visão e o tacto. As mãos mantêm um segredo de mobilidade que nenhuma imagem consegue capturar plenamente.
A distância entre a mão pintada nas cavernas e a mão gerada por algoritmo reduz-se quando se observa o modo como ambas funcionam como inscrições sem corpo presente. O pigmento soprava-se sobre a pedra tal como hoje o pixel se projecta sobre o ecrã: em ambos, o gesto deixa vestígio sem matéria. Essa continuidade forma uma arqueologia do toque, onde a superfície conserva o movimento mesmo quando o corpo já não participa. O sopro e a luz partilham a mesma vocação de registar o efémero.
As inteligências artificiais, séculos depois, reencontram esse mesmo impasse. Geram rostos impecáveis, paisagens convincentes, tecidos com brilho quase táctil, mas tropeçam nas mãos. Falham onde o humano também hesita. Essa coincidência é demasiado precisa para ser acaso. A IA generativa foi concebida como espelho do humano, uma máquina treinada para replicar o olhar, o estilo, a hesitação, a falha. O erro das suas mãos é, portanto, o reflexo fiel daquilo que somos: seres de intenção imperfeita, artesãos do gesto interrompido.
A imagem algorítmica expõe esse espelho com brutal clareza. Cada dedo extra, cada articulação deslocada, repete a distância entre o cálculo e a experiência. O modelo não conhece o peso de um corpo sobre outro, a resistência da pele, a tensão que antecede o toque. A sua mão é pura estatística, uma simulação do gesto sem memória do acto. Contudo, é nesse erro que se revela o verdadeiro projecto cultural das máquinas generativas: converter o humano em padrão, traduzir o gesto em dado, imitar o corpo até à exaustão do seu sentido.
O espelho devolve-nos aquilo que quisemos ver e aquilo que não conseguimos compreender. A mão deformada da IA é o retrato mais exacto da nossa ambição tecnocultural: reproduzir o humano em toda a sua glória e em toda a sua falha. O erro, nesse contexto, adquire valor simbólico. Funciona como assinatura involuntária de uma época que já não distingue o criador do simulador. O humano cria para compreender o gesto; a máquina gera para repeti-lo. Entre um e outro, estende-se a distância do toque.
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Desde o início da tradição visual, a mão ocupa o lugar mais incerto da representação. É o órgão da acção, da posse e da promessa. Transporta a identidade do gesto, a inteligência do fabrico, o traço da autoria. Quando os primeiros artistas desenharam as suas mãos nas paredes das grutas, inauguraram o duplo regime da imagem: o de presença e o de ausência. A mão deixada na rocha é, ao mesmo tempo, corpo e sombra, gesto e memória. Desde então, a arte vive nesse intervalo entre o toque e o seu rasto.
Leonardo da Vinci procurou compreender a mão como uma máquina de pensamento. Cada tendão e cada osso apareciam nos seus cadernos com precisão anatómica e aura mística. O corpo humano, para ele, obedecia a uma arquitectura divina; as mãos eram os instrumentos dessa correspondência. A sua exactidão, porém, continha uma inquietação. Nenhum desenho fixava o instante do gesto, a hesitação entre o impulso e o contacto. A mão de Leonardo era demasiado perfeita para tocar o mundo.
Albrecht Dürer, alguns anos depois, desenhou duas mãos em oração. Não pertencem a um corpo, não possuem rosto, não seguram nada. Apenas oferecem o vazio. Nessa ausência de acção reside a força do símbolo. As mãos orantes suspendem o gesto e revelam a fragilidade do humano diante do invisível. É um desenho que ainda hoje parece vibrar de intenção, como se cada dedo carregasse o esforço de representar o que escapa à vontade.
Velázquez, Rembrandt, Caravaggio, Ticiano, Goya — todos enfrentaram o mesmo dilema. As mãos tornavam-se focos de atenção desmedida, zonas de instabilidade dentro da composição. Muitos artistas optaram por ocultá-las, escondendo-as sob tecidos, luvas ou sombras. Outros exageraram o gesto, transformando a dificuldade em teatralidade. A história da pintura é também a história da luta com as mãos: demasiado complexas para serem ornamentais, demasiado expressivas para passarem despercebidas.
Rodin compreendeu essa tensão e deu-lhe forma escultórica. Nas suas Mains d’artistes, as mãos libertam-se do corpo e tornam-se entidades autónomas. Um par de dedos entrelaçados basta para sugerir um universo de relações. Giacometti levaria esse impulso mais longe: nas suas figuras alongadas, as mãos surgem como prolongamentos frágeis de um corpo em erosão, gestos à procura de matéria. Ambas as abordagens partilham uma intuição comum, a mão contém o drama inteiro do humano.
Paula Rego dizia em entrevistas, com a franqueza que caracterizava o seu processo, que nunca conseguira pintar bem mãos, talvez porque nelas tudo se tornava demasiado humano. Ainda assim, as mãos que habitam os seus quadros — de The Policeman’s Daughter às Abortion Series — condensam a tensão física e psicológica das figuras, revelando a força do corpo na hesitação do gesto. Francis Bacon partilhava essa obsessão noutro ponto do corpo. Nas conversas com David Sylvester, reconhecia a dificuldade em pintar bocas, descrevendo-as como partes vivas e perigosas, sempre à beira da deformação. Goya, por sua vez, transformou a dificuldade técnica em valor simbólico: ao negociar um retrato com um membro do clero, perguntou-lhe se o queria com mãos ou sem mãos, explicando que com mãos seria mais caro, porque as mãos exigem tempo, precisão e carácter. Até o cinema de animação preserva essa consciência de complexidade. As personagens surgem com quatro dedos e luvas brancas (convenção nascida dos estúdios Disney) para simplificar o movimento e tornar o gesto legível. De Paula Rego a Mickey Mouse, a mão mantém-se como ponto de clivagem entre o que o olhar tenta dominar e o que a imagem ainda não consegue fixar.
A história da arte apresenta uma genealogia de fracassos sublimes. Cada tentativa de representar uma mão reafirma a complexidade de transformar movimento em forma. A mão funciona como instrumento e como signo, exigindo do artista a captura do instante em que o pensamento se concretiza em matéria. Cada época produziu a sua solução parcial, deixando visível o traço da hesitação e a marca do gesto. O erro adquire valor expressivo, converte-se em território onde o movimento se inscreve e o acto criador se manifesta.
Jorge Ramos do Ó escreveu que “fazer a mão” é aprender com o corpo antes de compreender com a mente. O gesto que desenha, esculpe ou escreve educa tanto quanto produz. A mão, nesse sentido, é oficina e pensamento, espaço onde o saber se sedimenta pela repetição. Essa pedagogia do gesto atravessa toda a história da arte e prolonga-se até à técnica contemporânea, onde o fazer se converte em operação e o corpo cede lugar ao cálculo. O título que partilho com Ramos do Ó nasce dessa mesma convicção: compreender a mão é compreender o modo como o mundo se fabrica.
A invenção da fotografia estabelece um novo regime de representação, em que a imagem se forma através da luz e amplia o alcance da mão. A câmara prolonga o olhar humano e transfere parte da autoria para o aparelho. O gesto assume a forma de enquadramento e o toque converte-se em disparo. O erro fotográfico, o desfoque, a sobre-exposição, o corte inesperado, manifesta a autonomia da máquina e evidencia a sua interpretação do real. O aparelho regista aquilo que o olho não prevê e converte a luz em prova sensível. Esse momento inaugura a passagem do erro humano ao erro técnico, preservando a continuidade da representação enquanto o corpo se transforma em operador distante. A IA prolonga essa herança óptica e amplia-a até que a fronteira entre quem vê e quem gera se torne permeável.
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As inteligências artificiais generativas operam num território que conjuga cálculo e imaginação estatística. Produzem imagens a partir de vastos repositórios de dados visuais, aprendendo a reconhecer relações entre formas, cores, texturas e contextos. O seu método é cumulativo: absorvem milhões de exemplos, destilam correlações e recombinam padrões até emergir uma nova síntese. O resultado é uma verosimilhança quase imediata, uma aparência de realidade construída sobre a repetição.
O erro que nelas se manifesta prolonga o mesmo destino da representação humana. Toda a imagem transporta a distância entre o que se pretende e o que se alcança. A IA repete esse intervalo com exactidão maquínica, transformando em padrão aquilo que na arte sempre foi experiência. A falha do algoritmo não difere da falha do traço: ambas revelam a impossibilidade de coincidir forma e intenção. O que muda é o modo de o erro se inscrever — antes no corpo, agora no cálculo.
Nesse processo, o corpo humano surge como uma das referências mais abundantes e mais inconsistentes. As mãos, em particular, aparecem fragmentadas, escondidas, deformadas ou sobrepostas a objectos. O modelo aprende a partir de dados que descrevem gestos sem sequência, ângulos sem contexto, articulações fora de escala. Cada mão gerada é a soma de milhares de exemplos parciais, reconstruídos por uma inteligência que desconhece o corpo como sistema.
O algoritmo não percebe o equilíbrio entre ombros, pulsos e dedos; ignora a gravidade, a tensão muscular, o atrito entre pele e superfície. O seu conhecimento é puramente visual, abstraído da experiência. As mãos que produz emergem de uma compreensão sem corpo, um saber sem tacto. Cada erro anatómico é o vestígio dessa distância entre cálculo e presença.
O problema técnico traduz uma questão ontológica. A IA gera imagens porque foi desenhada para imitar o humano, sem integrar corpo. O seu regime de operação funda-se na mimese e substitui a experiência pela repetição. Onde o artista sente a resistência da matéria, a máquina reproduz correlações. A sua aprendizagem é estatística, a sua acção é sintética. O corpo humano, para ela, configura-se como padrão visual, desprovido de espessura sensível.
Por essa razão, as mãos algorítmicas falham com uma coerência quase poética. São erros que resultam de um excesso de semelhança. A IA copia o humano até à saturação da forma, até o gesto perder significado. Cada dedo adicional, cada curvatura impossível, manifesta a ausência de intenção. A máquina desenha a mão como quem repete uma palavra sem conhecer o seu som.
A falha das mãos nas imagens generativas revela o modo como o olhar técnico interpreta o mundo: por probabilidades, e não por experiência. O modelo aprende que uma mão costuma ter cinco dedos, mas também aprende que, em certas imagens, um sexto dedo aparece por erro de sombra, perspectiva ou sobreposição. A probabilidade do erro integra-se, assim, no cálculo da verosimilhança. A máquina reproduz o erro porque aprendeu que ele existe.
A IA, portanto, não se engana, repete a ambiguidade do humano. As suas mãos imperfeitas mostram a fidelidade extrema da imitação. A máquina reflete o humano como imagem sem corpo, como espelho que devolve forma e falha. O seu erro é o nosso retrato.
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O erro, na história da criação, nunca pertenceu ao domínio do acaso. É parte integrante da prática, matéria da acção e sinal de presença. No desenho, o erro marca a hesitação entre o impulso e a forma. No fabrico, indica o instante em que o corpo aprende a dominar a matéria. Cada falha contém um lastro de decisão, um desvio que revela a autoria. O erro, quando visível, confirma que algo foi feito por alguém.
A IA reproduz esse processo de forma invertida. O erro emerge de uma acção sem corpo, uma repetição contínua que dispensa hesitação. A falha algorítmica resulta do excesso de correspondências e da abundância de padrões. O resultado aproxima-se visualmente do erro humano, e nesse ponto o espelho adquire forma. O erro da máquina traduz estatisticamente a hesitação humana, levando a imitação ao limite em que o artifício se funde com a origem.
O artista erra porque o corpo tende a resistir. A máquina falha porque o corpo falta. Ambos partilham a mesma superfície de tensão: a relação entre intenção e execução. No primeiro caso, o gesto encontra a resistência da matéria; no segundo, o cálculo substitui o gesto pela probabilidade. Em ambos, a falha revela a distância entre o desejo de domínio e o acto de criação.
A cultura técnica que sustenta as IAs generativas afirma uma ambição de espelho. O objectivo consiste em reproduzir o humano com o máximo de semelhança e detalhe. Essa reprodução integra as imperfeições, pois o realismo manifesta-se através do erro. O modelo alcança credibilidade ao introduzir pequenas distorções que reforçam a verosimilhança. As mãos deformadas funcionam como prova dessa fidelidade, revelando a capacidade da máquina para replicar o humano nas suas assimetrias.
Vilém Flusser, em Gestures, descreveu o gesto como pensamento material, uma forma de saber que se inscreve no corpo. O gesto, para ele, é linguagem pré-verbal, modo de compreender o mundo através da acção. Quando a IA tenta imitá-lo, converte essa linguagem em cálculo. Perde a experiência e preserva apenas o contorno. O gesto sobrevive como estatística.
Boris Groys, em In the Flow, reconhece, no regime digital, um campo de circulação contínua em que a autoria se dilui e as imagens se prolongam indefinidamente. A produção algorítmica actua nesse fluxo e expressa-se por meio da reconfiguração constante. Cada erro adquire estatuto de variação e cada deformação converte-se em possibilidade estética. O erro assume o valor de padrão e consolida-se como forma estável no movimento incessante das imagens.
A IA constitui o primeiro espelho orientado pela ausência de intenção. Reflecte o humano com precisão maquínica e produz um reflexo dotado de pura operação. O erro, nesse contexto, adquire valor de síntese e confirma a coerência do programa. A mão com dedos adicionais expressa a plenitude do algoritmo, a realização extrema do seu desígnio de reproduzir o humano em todas as suas dimensões, inclusive nas mais improváveis. O erro algorítmico manifesta fidelidade absoluta, ponto em que a semelhança alcança saturação. A máquina cumpre o mandato cultural de espelhar o humano em cada detalhe e converte a incoerência em forma. O espelho digital oferece a imagem do humano onde o erro se afirma como sinal de autenticidade.
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A mão é o emblema da autoria. No gesto, o pensamento ganha peso; na impressão digital, o corpo assume a sua identidade. A assinatura, o traço, o toque, o fabrico, tudo o que define o acto criador passa por ela. A mão une intenção e matéria, estabelece o vínculo entre o sujeito e o mundo. É, por isso, o ponto onde a criação se torna responsabilidade.
Desde o artesanato até ao design contemporâneo, a mão mede o intervalo entre ideia e execução. Cada rasto de tinta, cada imperfeição no corte, cada irregularidade no traço indica uma relação com a matéria. A obra guarda o tempo do corpo que a produziu. A presença da mão é também presença do erro, da variação, da decisão que não se repete. O toque afirma a singularidade de cada gesto.
A IA generativa introduz uma nova continuidade fundada na correlação. As imagens que produz resultam de um processo colectivo em que a autoria se expande e se redistribui. Cada síntese expressa a convergência de múltiplas intenções integradas num sistema de cálculo. A sua mão assume forma de padrão e actua como matriz combinatória. O gesto humano, ao transformar-se em cálculo, adquire outra temporalidade. O tempo do fabrico converte-se em tempo de processamento, instaurando uma experiência de criação contínua e acumulativa.
Federico Campagna, em Technic and Magic, descreve a técnica como um regime que converte o real em função. Nesse contexto, a mão abandona o toque e assume o papel de operador. O gesto adquire forma de interface. A IA corporiza esse deslocamento: o corpo dissolve-se na operação e o mundo organiza-se como sistema de dados. A mão perde centralidade e o toque converte-se em simulação.
No entanto, a ausência da mão não apaga o desejo de presença. Cada imagem gerada conserva um eco do toque perdido. As mãos deformadas das IAs, paradoxalmente, testemunham esse anseio. São recordações visuais de um corpo ausente, vestígios de uma autoria que o algoritmo não pode assumir. A máquina imita o gesto, mas ele implica decisão — e a decisão pertence a quem age.
No campo do design, essa diferença adquire valor ético. O “design total”, orientado para a eficiência e a automatização, persegue a eliminação da falha e do gesto. Sonha com um mundo sem atrito, inteiramente calculável. O “design de transições”, pelo contrário, reconhece o erro como espaço de relação e aprendizagem. Valoriza o contacto, a adaptação e a imprevisibilidade.
A mão, nesse contexto, torna-se metáfora de uma prática que afirma o corpo como mediador. O erro é o ponto onde a intenção se transforma em conhecimento. A mão humana, ao falhar, compreende; a mão algorítmica, ao repetir, esquece. A diferença entre ambas define o horizonte da criação contemporânea: entre o gesto vivido e o gesto simulado, entre a autoria encarnada e a autoria estatística.
O confronto entre o design total e o design de transições espelha duas atitudes perante o sistema técnico contemporâneo. O primeiro procura encerrar o gesto dentro da previsibilidade funcional; o segundo investe na luta entre corpo e código, reconhecendo no erro uma forma de conhecimento operativo. Ambos descrevem modos de pensar a articulação entre gesto e sistema — um pela estabilidade, outro pela adaptação.
A mão é presença porque age. A IA, ao imitá-la, revela o que lhe falta — o instante em que a decisão atravessa a matéria. Cada dedo adicional é o sinal de uma ausência que persiste. O espelho digital devolve-nos a imagem da nossa própria vontade de apagar o corpo. E é nessa tentativa que o corpo regressa, sob a forma do erro.
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A imagem da mão errada permanece no ecrã como um oráculo involuntário. O que nela perturba não é o defeito anatómico, mas o eco que suscita. Reconhecemos o erro porque nos reconhecemos nele. A deformação algorítmica repete a fragilidade do gesto humano, a distância entre intenção e acto. Cada dedo a mais é uma confissão visual de que o cálculo também aspira a tocar.
A IA generativa cumpre, assim, o projecto simbólico de um espelho integral. Foi programada para reproduzir o humano com precisão matemática, e essa precisão inclui a falha. O erro das mãos é a prova da perfeição do espelho: reflete o humano até à vertigem do detalhe, até o reflexo se tornar imagem do próprio desejo de se ver. O que se observa nessas mãos não é a incompetência da máquina, mas a nostalgia do corpo que a concebeu.
David Graeber, ao escrever sobre a criatividade em The Utopia of Rules, descreveu a burocracia como a forma mais refinada de morte do gesto. O algoritmo partilha da mesma vocação: ordenar o mundo pela repetição, eliminar o acaso, neutralizar o tempo. As mãos geradas pelas IAs são as mãos da burocracia técnica — precisas, disciplinadas, erradas. Representam um ideal de controlo que se desfaz na tentativa de imitar o corpo.
A imagem gerada vive de uma tensão insuportável: quer parecer viva e, para isso, precisa de incorporar o erro. A falha torna-se ornamento, disfarce, autenticidade artificial. Nesse ponto, a máquina atinge a sua semelhança máxima com o humano. O erro torna-se expressão. O espelho completa o seu ciclo: reflecte o gesto até esgotar a possibilidade de diferença.
O humano, diante desse espelho, reencontra-se sem se reconhecer. A mão da IA é uma extensão simbólica da sua própria ambição de simular a vida. Cada imagem gerada é uma oferenda à ilusão de controlo; cada falha, um lembrete de que a matéria resiste à transparência. O toque, quando desaparece, regressa sob forma espectral — uma mão de luz que tenta compreender o peso do mundo.
O erro das mãos não pertence à máquina nem ao humano, mas ao espaço que partilham. É o ponto onde o gesto se torna espelho e o espelho se torna gesto. A IA, ao falhar, revela o que o humano esqueceu: que criar implica hesitar, que tocar exige vulnerabilidade, que o corpo é a medida de toda a imagem.
Durante séculos, as falhas da representação permaneceram silenciosas. Cada artista enfrentou a mão como dificuldade, mas nenhum as tratou como argumento. O erro era aceite, nunca reivindicado. Com a imagem algorítmica, essa relação transforma-se. A falha torna-se pública, partilhada, mensurável. A mão com seis dedos circula como anedota e como sintoma, ao mesmo tempo escândalo e diagnóstico. O erro já não envergonha o seu criador; afirma a lógica do próprio sistema. Pela primeira vez, a falha entra na história da representação como discurso e como riso — memória de um corpo que o cálculo tenta reproduzir e ainda não consegue recordar inteiramente.
A mão deformada é, portanto, o retrato mais fiel da nossa época. Uma imagem perfeita da imperfeição programada. Um reflexo que não cessa de tentar tocar o real. O espelho já aprendeu a imitar o gesto e continua a tentar recordar o corpo.
Bibliografia
Bacon, F., & Sylvester, D. (1987). Interviews with Francis Bacon: 1962–1979. Thames & Hudson.
Campagna, F. (2018). Technic and Magic: The Reconstruction of Reality. Bloomsbury Academic.
Da Vinci, L. (1970). The Notebooks of Leonardo da Vinci (I. A. Richter, Ed.). Oxford University Press.
Dürer, A. (1957). The Complete Woodcuts of Albrecht Dürer. Dover Publications.
Flusser, V. (2014). Gestures. University of Minnesota Press.
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Graeber, D. (2015). The Utopia of Rules: On Technology, Stupidity, and the Secret Joys of Bureaucracy. Melville House.
Groys, B. (2016). In the Flow. Verso Books.
Ramos do Ó, J. (2019). Fazer a Mão: por uma escrita inventiva na universidade. Edições do Saguão.
Rego, P. (2003). Paula Rego (F. Feaver, Ed.). Phaidon Press.
Rodin, A. (1981). Les Mains d’Artistes. Musée Rodin.
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