Turismo, design e o souvenir como prova da viagem interior
A palavra souvenir surge no francês do século XIII como derivação de se souvenir — acto de trazer à presença aquilo que já passou. O termo emerge primeiro como verbo, expressão de atenção ao tempo e da sua reactivação. Antes de assumir forma vendável, o souvenir designa uma operação mental e afectiva: reter, convocar, fazer regressar.
Os romanos deram a essa operação uma forma política. Cada província conquistada devolvia à capital uma constelação de vestígios: moedas, tecidos, amuletos, estatuetas, fragmentos arquitectónicos, pequenas inscrições em pedra. Esses elementos funcionavam como confirmações tangíveis da expansão imperial, atuando como provas materiais de soberania. Possuir o vestígio equivalia a possuir o território. O que regressava assumia o papel de presença delegada: o império mantinha-se visível através da matéria que o representava.
A partir desse momento, recordar deixou de ser um gesto interior e passou a ser uma prática organizada. O souvenir tornou-se cápsula portátil de lugar, tempo e poder. A distância converteu-se em matéria transportável. O império descobriu que mandar regressar um fragmento do mundo equivalia a reescrever o mundo dentro do seu próprio centro.
A cultura cristã aperfeiçoou essa lógica ao transformar relíquias em sistemas de circulação espiritual. Ossos, cabelos, gotas de sangue, pedaços de tecido, lascas de madeira convertiam-se em garantias físicas de presença sagrada. Um fragmento certificava um acontecimento milagroso. Não importava que esse fragmento fosse mínimo; bastava transportar a promessa do todo. A viagem do crente terminava sempre num regresso: levar consigo um vestígio equivalia a trazer parte da transcendência para o quotidiano.
Neste ponto, surge o primeiro eixo conceptual deste texto:
Toda a memória é uma montagem, e o souvenir constitui a sua primeira tecnologia portátil.
Recordar equivale a produzir uma versão possível daquilo que já passou. O souvenir actua como dispositivo dessa edição. Em vez de preservar o passado tal como ocorreu, reorganiza-o em forma presente. Cada superfície, cada matéria, cada inscrição constrói uma ficção estruturada daquilo que aparece como lembrança. A memória converte-se em linguagem, e o souvenir funciona como a sua gramática portátil.
Quando o turismo moderno surge no século XIX, o souvenir deixa de circular apenas por vias religiosas ou imperiais e entra no domínio industrial. A viagem organiza-se como experiência vendável, e a lembrança converte-se em extensão dessa experiência. Um postal ilustrado, uma colher de prata, um bibelô em porcelana, um mapa dobrado, um azulejo com uma vista marinha: cada peça constitui uma edição privada do mundo, recortada segundo uma economia afectiva.
O souvenir torna-se forma de publicação dispersa. Cada pessoa cria o seu próprio arquivo da deslocação. O frigorífico da cozinha suburbanizada converte-se em museu de ímanes; a mala de viagem transporta miniaturas de monumentos; a prateleira exibe cidades vitrificadas. A viagem passa a existir tanto no corpo que a vive como no objecto que a transporta de volta.
Recordar implica editar. Publicar implica seleccionar. O souvenir consolida essa relação e converte a memória num regime material de circulação. Cada fragmento recuperado traz consigo uma narrativa: “estive lá”, “vi isto”, “participei no mundo”. A lembrança ganha forma, peso, textura, lugar de repouso.
O souvenir afirma-se, desde a origem, como operador de reentrada no tempo. Cada regresso apresenta uma versão diferente do acontecimento vivido. Cada conservação transforma o vestígio ao longo da sua circulação. A memória move-se como invenção comovida do real.
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Viajar sempre implicou deslocação física, e o turismo moderno acrescenta outra camada: a procura por um estado sensorial específico. A viagem transforma-se em coreografia emocional, mais do que simples travessia geográfica. Cada destino oferece uma combinação própria de atmosfera, ritmo, textura, narrativa e intensidade afectiva. O turista procura lugares, e procura também versões de si que apenas se tornam possíveis através desses lugares.
O souvenir integra esse regime sensorial. Assume o papel de condensador de experiência, registando o impacto afectivo do percurso. Um pedaço de areia numa garrafa, uma fotografia feita à pressa, uma t-shirt com o nome da cidade, um copo de shot, um postal com uma praia deserta: cada vestígio actua como dispositivo táctil de reactivação sensorial. Em vez de preservar o território visitado, preserva a impressão do território no corpo.
O turismo do sensível organiza-se como economia de atmosferas. Cada território converte-se em superfície perceptiva pronta a ser colhida, arquivada e transportada. O design desempenha um papel decisivo nessa transformação. O espaço turístico já não se limita ao território natural ou urbano, mas inclui identidades visuais, tipografias locais, sinaléticas, embalagens, mapas ilustrados, merchandising, ícones arquitectónicos, playlists, filtros de Instagram, hashtags. Cada elemento prepara a viagem antes de ela acontecer e prolonga-a depois de terminar.
O souvenir torna-se elemento estratégico dessa arquitectura afectiva. A sua presença portável garante que o tempo vivido continua a trabalhar depois da viagem. O que volta connosco não é só um fragmento de território — é uma versão encapsulada daquilo que sentimos. Nesse sentido, o souvenir funciona como edição emocional do mundo.
Ao contrário do arquivo histórico, que procura estabilidade, o souvenir vive da circulação. Passa de mão em mão, de casa em casa, de superfície em superfície. Um íman muda de frigorífico, uma pulseira de festival muda de pulso, uma fotografia impressa muda de moldura. O souvenir opera como entidade móvel que adapta a memória aos novos lugares onde se instala. Não fixa o passado: reinscreve-o.
O turismo do sensível depende desta transferência. O que justifica a viagem não é apenas o que se vê, mas o que se leva, o que se reencontra mais tarde, o que se partilha com outros corpos que não estiveram lá. O souvenir transforma-se em prova afectiva de deslocação. Quem o observa sabe que existe um antes: um momento vivido noutro território, diante de outro clima, noutra hora da terra.
O design reforça esse circuito ao criar superfícies que funcionam como gatilhos de reativação. Uma imagem pode reabrir um cheiro. Um logótipo pode reconvocar um clima sonoro. Um fragmento de cor pode reavivar uma luz. O souvenir é mais do que memória, é interface sensorial, uma porta mínima para o regresso.
Cada viagem despoleta um ciclo de percepção, e cada souvenir prolonga-o. O turismo constrói-se como ecologia afectiva, e o souvenir actua como a sua tecnologia portátil. A experiência torna-se transmissível, sensível e editável. A memória converte-se em circulação pública.
E é a partir desse ponto que a economia da lembrança ganha espessura política.
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O souvenir é mais do que uma marca afectiva ou um registo privado: participa numa economia material da lembrança. O que regressa connosco não é apenas memória, mas também mercadoria. A lembrança converte-se em circulação económica — visível nas bancas de aeroporto, nos mercados de rua, nas lojas de museu, nas plataformas de e-commerce e até nos sistemas algorítmicos que produzem “memórias automáticas”.
A memória entra em produção. Cada souvenir é uma pequena edição vendável da experiência. As cidades exportam fragmentos de si em plástico moldado, madeira lacada, algodão serigrafado, vidro temperado ou JPEG comprimido. O mundo transforma-se num catálogo de versões portáveis. O turismo converte-se em extracção de atmosfera — e o souvenir, em subproduto comercial dessa extracção.
A economia da lembrança adquire maior tensão moral quando envolve a memória traumática. A paisagem da tragédia também gera circulação. O Museu de Auschwitz organiza a exibição de escovas, sapatos, malas, próteses, vestígios corporais e objectos pessoais como provas de extermínio. Não existem ali souvenirs coloridos ou merchandising comemorativo: o visitante não compra um pedaço de Auschwitz — recebe a obrigação de se lembrar. A exposição recusa a estetização e converte o vestígio em documento.
O caso de Hiroshima revela um desalinhamento evidente: o Hiroshima Peace Memorial Museum institui um discurso pacifista e anti-nuclear, enquanto no exterior se expande um mercado de lembranças turísticas, desde porta-chaves com cogumelos atómicos estilizados até peluches com o logótipo da cidade. A memória oficial assume uma função pedagógica; a memória comercial adopta uma função ornamental. Ambas coexistem. Ambas disputam o regresso
Chernobyl acrescenta uma terceira camada. A venda de “souvenirs radioactivos” — pedaços de grafite encapsulada em resina ou carvão vitrificado — reconfigura o trauma em relíquia pós-nuclear. Um vestígio de catástrofe converte-se em item coleccionável. A lembrança transforma-se em propriedade privada. O risco, em fetiche.
Estes casos concretos mostram que o souvenir não actua como simples marcador da viagem; é um operador económico da memória pública. O que se vende define o que regressa. A circulação substitui a experiência e estabiliza a narrativa do acontecimento. O visitante sai com uma versão transportável da história — e essa versão molda o que se pensa sobre o passado.
Pierre Nora chamou a estes lugares lieux de mémoire: espaços onde o passado se converte em dispositivo de gestão colectiva. Marianne Hirsch descreveu o fenómeno como post-memory: a transmissão afectiva de um trauma nunca vivido em primeira pessoa, mas herdado através de imagens, objectos e rituais. Andreas Huyssen acrescentou uma outra formulação: vivemos num tempo em que o excesso de memória coexiste com a aceleração digital do presente, criando uma “superprodução de passado”.
O souvenir inscreve-se nesse regime de excesso e circulação. Funciona como fragmento de uma história que passa a existir no presente do consumo. A lembrança converte-se em valor de troca; o trauma, em narrativa editável; o vestígio, em versão reproduzível. A economia da lembrança modela o que regressa e determina o modo como o passado se mantém activo.
E quando a memória passa para o domínio digital, essa economia intensifica-se. O souvenir electrónico — fotografia guardada na nuvem, recordação automática de “há 5 anos”, vídeo arquivado pela plataforma, NFT que certifica a presença num evento — transforma a experiência em dado persistente. O que antes dependia de um corpo que regressa com um artefacto agora depende de um algoritmo que faz a memória regressar sem corpo. O souvenir deixa de ser trazido: é empurrado de volta.
A memória entra em circulação autónoma.
E a pergunta desloca-se: quem decide o que regressa?
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Publicar consiste em tornar algo presente diante de outros. Cada publicação converte um acontecimento numa superfície partilhável. O souvenir participa desse gesto editorial: funciona como edição condensada do tempo, inscrição portátil que assegura a transmissão da memória vivida. Em vez da experiência directa, oferece uma versão possível do acontecimento.
Cada souvenir actua como micro-edição temporal. Selecciona, recorta, reduz, simplifica, traduz. Tal como um livro, resulta de escolhas: o que permanece, o que se retrai, o que se amplia, o que se repete. A memória adquire legibilidade porque se organiza em forma. O souvenir realiza essa organização à escala da mão.
A prática do design aproxima-se do trabalho editorial quando gere aquilo que regressa ao presente. Um cartaz, um mapa turístico, uma embalagem de museu, um postal ilustrado ou uma aplicação de arquivo operam como sistemas de edição. Cada suporte determina o tipo de memória que se torna visível e o modo como circula. O design produz versões do mundo.
O souvenir electrónico intensifica esse processo. As plataformas digitais editam o passado em fluxo contínuo: transformam fotografias antigas em notificações, reorganizam álbuns e remontam arquivos por meio de processos automáticos. A recordação passa a surgir através de ciclos de retorno programado. A memória regressa porque o sistema a reactiva.
O NFT acrescenta outra mutação: a certificação da presença em formato singular. O conteúdo visual ou sonoro cede lugar à garantia de existência irrepetível num bloco de dados. O souvenir digital converte-se em propriedade exclusiva. A lembrança adquire valor criptográfico. Recordar implica também possuir. A memória entra plenamente na lógica do coleccionismo e da escassez construída.
Surge, então, a questão política: que papel desempenha o design nesta economia da recordação?
O campo do design oferece exemplos concretos dessa escolha entre o comércio da memória e o trabalho crítico sobre o regresso. O design de merchandising museológico transforma a lembrança em produto portátil — basta observar a circulação global dos artefactos da MoMA Design Store, da Tate Modern ou do Louvre, onde a memória histórica se converte em superfície de venda. O turismo urbano, activado por identidades gráficas como “I ❤ NY” ou “Lisboa Sardinha”, confirma a mesma lógica: o souvenir funciona como prova de circulação, pronto para ser fotografado, publicado e arquivado. Em contraste, surgem práticas que operam noutra direcção, como aplicações de arquivo biográfico familiar, projectos de museologia afectiva ou experiências instalativas que reabrem o passado em vez de o cristalizarem. Exemplos como StoryCorps, o Museum of Broken Relationships ou certas propostas de design especulativo orientadas para a memória futura mostram que o design pode criar dispositivos que expandem a recordação em vez de a converter em fetiche. A ética do design emerge precisamente neste ponto: cada formato de edição decide que tipo de lembrança ganha corpo e que tipo de esquecimento se instala.
A prática do design pode favorecer a mercantilização da lembrança, embalando cada vestígio como produto de circulação rápida, ou pode gerar dispositivos de memória que cultivem outro tipo de retorno, fora da lógica exclusivamente comercial. Entre a colecção estável e o silêncio absoluto, existe uma zona activa: edições que abrem fendas, superfícies que acolhem lacunas, publicações que reactivam a memória e desviam o acontecimento da sua forma fixa.
Certos artefactos devolvem o passado como mercadoria; outros, como pergunta. A diferença emerge na forma de edição.
O design deixa de actuar como simples instrumento de visualização e assume o papel de operador do tempo. Cada escolha formal exprime uma ética da memória: quanto se mostra, quanto se reserva, que tipo de retorno se oferece. Publicar equivale a decidir como o tempo regressa ao presente.
O souvenir evidencia essa potência editorial. Funciona como página solta do mundo, fragmento publicado à escala da mão, superfície que viaja, muda de lugar, reencontra outro corpo, produz nova leitura. O acontecimento permanece em circulação por meio dessa reedição contínua.
O souvenir concentra, desloca e reenvia. A memória segue em trânsito.
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Cada souvenir promete um regresso. Em vez de devolver o lugar onde estivemos, oferece a possibilidade de o reinscrever. A sua força reside nessa activação contínua: transporta o passado em forma mutável e reabre o tempo como matéria editável. O souvenir reactiva a experiência e prolonga a vida do acontecimento.
O regresso acontece na atenção. Um íman preso ao frigorífico, um fragmento digital reexibido pelo algoritmo, uma peça cerâmica comprada num bazar, um NFT certificado no ecrã — cada vestígio cumpre a sua função no momento em que reencontra um corpo que o lê. O souvenir realiza-se por meio desse reencontro. A viagem prolonga o movimento sempre que alguém observa o artefacto e, nesse gesto, reabre o percurso.
Marcel Mauss descreveu a dádiva como um sistema circular: aquilo que parte regressa porque mantém uma relação viva com quem a dá. O souvenir participa dessa mesma estrutura. Viaja, desloca-se, muda de proprietário, altera de função, mas regressa sempre sob nova forma — o que volta não coincide com o que partiu, e essa transformação confirma a vitalidade da relação. O regresso é a prova de que algo permanece em circulação.
David Graeber ampliou esta ideia ao afirmar que toda a economia é também uma economia moral da atenção. O que retorna indica o que permanece valorizado na comunidade. Um souvenir não circula por acaso: circula porque alguém decide que merece regressar. O regresso é sempre selecção e toda a selecção traduz uma hierarquia afectiva, política ou económica.
Nietzsche formulou o eterno retorno como teste de força: só aquilo que suporta voltar infinitas vezes pode afirmar a sua própria existência. O souvenir opera numa versão portátil dessa lógica. Um vestígio que regressa inúmeras vezes sem se esgotar mostra que a sua memória ainda não se cristalizou. O regresso funciona como prova vibratória: enquanto continua a produzir novas leituras, permanece activo no presente.
Bruno Latour descreveu o mundo como rede de circulações em constante movimento, onde cada entidade adquire estabilidade através do seu próprio trânsito. O souvenir confirma essa dinâmica. A sua identidade emerge do percurso, mais do que da matéria que o compõe. Um artefacto regressa sempre transformado: altera significado, contexto, afecto e narrativa. O regresso opera como mutação contínua, enunciando diferença em vez de repetição.
Neste ponto, o souvenir assume a função de agente de reentrada temporal, ultrapassando o estatuto de simples marcador da viagem. Cada regresso inaugura um novo começo. O passado reaparece sob outra versão, e essa versão transforma o presente que a recebe. O souvenir converte o que foi em possibilidade futura, abrindo a experiência a novas leituras e novas inscrições.
O design participa activamente nesta arquitectura do retorno. Uma superfície pode convidar ou impedir o reencontro. Um padrão pode abrir ou encerrar a memória. Uma interface pode expor ou dissolver temporalidades. A forma não serve apenas para guardar: serve para permitir que algo volte. Projectar um artefacto implica projectar o modo como regressará.
A viagem termina quando deixamos o lugar, mas o souvenir impede que ela acabe. O regresso é a sua verdadeira viagem, uma viagem que não depende de deslocação, mas de reinscrição contínua.
Cada souvenir regressa como versão. Cada versão altera a memória. Cada memória alterada constrói um novo tempo.
O retorno não é repetição: é produção activa de diferença.
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Todo souvenir nasce como resto de uma viagem e converte-se no início de outra. Estende o percurso e mantém o movimento activo. Cada artefacto de memória funciona como dobra entre o que passou e o que continua em elaboração. O retorno actua sobre o passado e converte-o em transformação.
A memória regressa sempre transformada. Cada superfície, cada matéria, cada imagem, cada interface devolve uma versão editada do que já foi vivido. Recordar equivale a montar. O souvenir actua como dispositivo dessa montagem portátil. O que transportamos connosco corresponde à possibilidade de reactivar o lugar, mais do que ao lugar em si.
As sociedades organizam-se em função do que conseguem fazer regressar. O império romano, o cristianismo medieval, os museus modernos, as plataformas digitais, os mercados turísticos, as colecções privadas e os arquivos públicos partilham essa mesma estrutura: seleccionam aquilo que deve voltar, determinam a forma do retorno e legitimam o que merece circular. O regresso constitui economia, política e narrativa.
O souvenir expõe essa arquitectura. Pode servir a autoridade, o comércio, a nostalgia, a pedagogia, a propaganda, o afeto ou a ironia. A sua força não depende do tamanho, mas da capacidade de interromper o fluxo do tempo e reabri-lo. Quem recebe um souvenir recebe um tempo editado, e torna-se responsável pela próxima edição.
O design encontra aqui a sua tarefa decisiva: construir meios de retorno que abram em vez de fechar. Um artefacto pode reforçar a propriedade ou activar a partilha. Pode fixar uma história ou permitir que ela se desdobre em novas leituras. Pode pacificar o passado ou devolvê-lo como pergunta. A ética emerge quando a forma publicada determina o tipo de regresso que possibilita.
O souvenir prolonga a viagem e mantém o percurso em movimento contínuo. A circulação preserva a vitalidade do acontecimento. O tempo regressa em modo de recomposição, criando novas versões da experiência vivida. O souvenir actua como agente de reenvio, activando o passado em vez de o fixar.
E cada vez que regressa, também quem o reencontra regressa consigo. A memória desloca-se, mas desloca-nos com ela. Voltamos ao passado como se fosse a primeira vez. O regresso nunca coincide.
A viagem continua porque regressa. E regressa porque continua.
Referências
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