Solidariedade em Edição Limitada

Um emblema em forma de coração com as cores da bandeira palestiniana, lançado em edição limitada e numerada, como se a solidariedade pudesse ser regulada por tiragem, autenticada como peça de coleção. Até a própria ideia de edição limitada é limitada: reduz uma tragédia sem fronteiras a um gesto fechado, controlado, confortável para quem compra, mas inútil para quem sofre.

Sei bem o que me podem dizer. Que relativizo um conflito assimétrico, que não tenho lugar de fala, que o meu privilégio de homem branco europeu me mantém protegido do que denuncio. Sei também que, ao criticar os que compram emblemas ou lenços em nome da Palestina, posso ser acusado de elitismo moral: de desprezar o pequeno gesto enquanto eu próprio admito não fazer nada de grandioso. E sei, por fim, que a minha indignação pode soar a moralismo, mesmo quando recuso esse papel.

Aceito tudo isso. Carrego essas contradições e continuo indignado. Porque ninguém me convence de que se endireita o mundo desta forma, transformando a dor em souvenir, a política em adereço, o sofrimento em mercadoria solidária.

É óbvio que devemos mostrar solidariedade, indignação, pressão internacional. Mas a questão é outra: por que esta causa e não outra? Por que Gaza tem direito a hashtags, símbolos e acessórios estilizados, enquanto o Sudão, o Ruanda ou a fuga silenciosa de milhares de russos dissidentes não recebem atenção, nem trending topic, nem edição limitada? O critério não é a urgência da tragédia, é a capacidade de se tornar espetáculo. O mesmo se verifica dentro de portas: o crescimento brutal do suicídio no Alentejo não mobiliza marchas nem campanhas visuais; os incêndios que ciclicamente devastam o país já não rendem hashtags; a precariedade crónica que devora gerações inteiras de jovens em Portugal não gera edições numeradas de solidariedade. A indignação coletiva raramente se move por urgência real; move-se por moda, por algoritmo, por conveniência estética.

Susan Sontag avisava em Regarding the Pain of Others que a dor, quando estetizada, se transforma em imagem confortável para o olhar distante. Luc Boltanski, em La souffrance à distance, explicava que a piedade mediada cria o espaço ideal para o consumo da compaixão: não se age, mas exibe-se a sensibilidade. Estes objetos simbólicos, vendidos como se fossem relíquias, são a prova prática dessas teses.

Eu não sou santo. Não tenho vocação para mártir. Vivo confortável, protegido, distante. E, no entanto, não me resigno a entrar neste jogo obsceno em que a solidariedade se mede por pins, lenços ou adereços de moda. Não quero ganhar o céu envergando um kefiah ao pescoço nem uma bandeira ao peito. Prefiro a minha impotência assumida, que pelo menos me obriga a pensar, a reconhecer a complexidade, a agir perto de onde posso.

O que consigo fazer é outra coisa, menos vistosa, mais discreta. Tentar cuidar dos alunos que tenho na universidade, acompanhar a sua vida, aprender com eles e ajudá-los a encontrar espaço num mundo que tantas vezes os rejeita. Procurar manter relações de confiança com quem partilha comigo o trabalho e a criação, numa rede frágil de colaboração que se constrói todos os dias. Essa espécie de curadoria silenciosa, feita de atenção e de partilha, pesa mais do que qualquer adereço comprado por impulso. É aí que as minhas contradições deixam de ser abstratas e se tornam vida partilhada. Não é grande nem heróico, mas é real.

O que me revolta é ver o rebanho digital embriagado de virtude barata, a desfilar símbolos como se fossem shots de tequila, quando na verdade não passam de goles de água destilada. Vivemos embriagados por gestos puros, lisos, instagramáveis, enquanto o mundo real continua turvo, impuro, cheio de nódoas.

Não compreendo como se escolhe tão facilmente um lado num conflito tão denso, como se bastasse colar um símbolo ao casaco ou postar uma bandeira. Repudio a violência sobre humanos, sejam eles bons, maus ou assim-assim. E irrita-me a leveza com que tantos heróis instantâneos se deixam arrastar pelo algoritmo, como se a solidariedade fosse uma tendência sazonal. Porque no fim ninguém é suficientemente palestiniano a não ser os próprios. E mesmo esses, como todos nós, não são neutros. São humanos.

E no entanto, aqui estou eu, a escrever esta crítica, a destilar indignação em palavras e a partilhá-la no Instagram com um link para quem quiser ler. Também eu faço parte do mesmo circuito, também eu alimento o espetáculo que denuncio. O que escrevo é sujo, mas antes uma mancha incómoda do que a nódoa glamorosa da futilidade.

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