Uma parte significativa da produção imagética feita por inteligência artificial apresenta elementos que associamos ao surreal, sobretudo quando os prompts são abertos e não direcionados para o fotorrealismo ou para uma representação naturalista. Este efeito deve ler-se como sintoma cultural. Yves Citton (2014), em L’économie de l’attention, recorda que a atenção funciona como ecologia coletiva: é modulada, cultivada e disputada em ambientes saturados de estímulos. Nesta perspetiva, a estética do estranho ganha visibilidade porque ocupa o centro dessa ecologia, captura olhares, redistribui energia perceptiva e assegura circulação nas redes. O surrealismo maquínico surge, assim, tanto como resultado do funcionamento maquínico quanto da lógica cultural que privilegia o insólito.
O percurso começa no surreal, onde a justaposição intensifica colisões e suspende a causalidade; avança para o estranho (weird), que introduz um fora ativo, uma força que reconfigura expectativas; entra no inquietante (uncanny), quando o familiar regressa com um desvio mínimo que perturba; e cruza o vale do inquietante (uncanny valley), zona em que o quase-humano intensifica a repulsa à medida que a semelhança cresce sem plena congruência. Esta quadrícula orienta a leitura das imagens de IA e oferece uma gramática para a circulação do estranho.
O surrealismo de André Breton (2016), proposto em textos como os Manifestos do Surrealismo (1924–1946), apresentava o automatismo psíquico como via de libertação: a escrita ou a criação espontânea sem a mediação da razão, em busca de uma ligação direta ao inconsciente. Esta prática tinha uma dimensão política, pois pretendia subverter estruturas de controlo racional e burguês, instaurando uma imaginação insurgente capaz de dissolver hierarquias. O automatismo psíquico surgia como técnica estética e estratégia de emancipação subjetiva e coletiva.
Quando se olha para a IA, surge a tentação de traçar um paralelismo imediato: o algoritmo também produz de forma automática, combinando signos sem intencionalidade consciente. A analogia, porém, revela logo a sua fratura. O automatismo surrealista era um gesto deliberado de libertação do sujeito; o automatismo maquínico emerge de uma exterioridade técnica: recombina resíduos visuais a partir de estatísticas. A afinidade entre ambos não está na origem (psíquica vs. maquínica), mas na estrutura: em ambos os casos, a criação emerge de processos não lineares e de justaposições que escapam à racionalidade discursiva. A IA simula um automatismo sem interioridade; ainda assim, a perceção humana tende a ler o resultado como se fosse produto de um imaginário profundo.
Grande parte da produção imagética feita por IA tende para o surrealismo porque a lógica de funcionamento destes sistemas aproxima-se, de forma estrutural, daquilo que o surrealismo procurou: a combinação inesperada, a colisão de signos, o encontro entre elementos que não deveriam coexistir e que, justamente por isso, revelam uma intensidade poética e inquietante.
Walter Benjamin (2012) observava como a reprodução mecânica dissolvia a “aura” do original. A IA, ao multiplicar e recombinar imagens, cria um regime em que a aura se dilui, restando a lógica combinatória. Esse processo aproxima-se do que Breton designava como “beleza convulsiva”: a beleza que emerge do choque e da montagem, da justaposição de elementos sem contexto.
Do ponto de vista técnico, o surrealismo das imagens de IA nasce da dificuldade destas máquinas em sustentar a coerência: rostos duplicados, membros em excesso, espaços distorcidos. O que no realismo seria falha, na chave surrealista converte-se em estilo. Deleuze e Guattari (2003), em Mil Planaltos, falam da “máquina de guerra” como dispositivo de desterritorialização; a IA atua assim, desterritorializando códigos visuais estabelecidos e recombinando-os de forma anárquica, quase automática, numa espécie de inconsciente maquínico.
Há também uma dimensão cultural. No ecossistema digital contemporâneo, valoriza-se o estranho, o grotesco, o desconfortável. O surrealismo surge como a forma estética que melhor circula nas redes: capaz de provocar riso, choque, partilha viral. A IA não inventa o surrealismo; converte-o num regime de produção contínuo, ajustado à economia da atenção.
O surrealismo maquínico ganha intensidade porque se inscreve numa economia que privilegia a atenção como recurso escasso. Shoshana Zuboff (2020), em A Era do Capitalismo da Vigilância, mostra como as plataformas colonizam a experiência individual, capturando dados e transformando cada gesto em mercadoria preditiva. Nesse regime, as imagens de IA que mais circulam não são as coerentes e previsíveis, mas as que interrompem, chocam ou provocam hesitação perceptiva.
Citton (2014) sublinha que a atenção é processo coletivo de fabrico e redistribuição. O estranho, o bizarro e o perturbador participam nesta fabricação partilhada, orientando sensibilidades e modos de ver em escala social. As imagens produzidas por IA não apenas captam atenção individual, mas moldam um regime coletivo de perceção, em que o surreal opera como mecanismo de coesão e disputa cultural.
Chamo inconsciente maquínico a uma heurística em três planos: no técnico, modelos generativos recombinam padrões em espaços latentes e produzem correlações; no estético, o olhar interpreta essas correlações como indícios de profundidade e atribui sentido às colisões; no político, resíduos históricos, classe, género, raça, colonialidade, atravessam os dados e orientam afetos. A articulação destes planos permite ler cada imagem como síntese de funcionamento, perceção e governação.
Enquanto o surrealismo histórico procurava libertar o olhar e o pensamento de uma racionalidade repressiva, o surrealismo maquínico funciona como engrenagem de captura e monetização. Partilham uma estrutura formal (automatismo) e divergem no horizonte político: emancipação no primeiro caso, instrumentalização no segundo.
Mark Fisher (2025), em O Esquisito e o Inquietante, sugeria que o estranho e o inquietante não residem apenas no irreal, mas na fratura do real. As imagens de IA são precisamente isso: fraturas visuais, ecos de um real impossível. O surrealismo deixa de ser apenas movimento artístico e torna-se estética espontânea da máquina—reflexo de um processo técnico que simula o onírico sem sonhador.
A questão que se coloca é se estas máquinas poderiam ser programadas para evitar tais combinações. Em teoria, sim; na prática, com custos e perdas claras. Os modelos de difusão não “sabem” o que é surreal ou realista: aprendem padrões estatísticos e geram recombinações. Se o objetivo fosse apenas realismo fotográfico, impunha-se treinar datasets filtrados e aplicar restrições de consistência anatómica, perspectiva e lógica física. Isto é praticável em domínios como medicina ou fotografia de produto, com redução de liberdade imagética.
O surrealismo histórico cultivou deslocações e exotismos que alimentaram um arquivo de estranhezas. A imagem técnica recente acrescenta uma economia própria: a dissolução da aura identificada por Benjamin encontra segunda vida na “imagem pobre” de Hito Steyerl (2012); as gramáticas de software instauram rotinas de manipulação (Manovich, 2001); e o novo tende a instituir-se como programa de repetição (Groys, 2022). A IA condensa estas linhas: recombina exotismos herdados, opera por gramáticas codificadas e transforma a novidade em rotina calculável — um surrealismo maquínico com materialidade de plataforma.
Mas a razão pela qual não se evita o surrealismo é dupla. Do lado técnico, forçar coerência absoluta exige esforço computacional, correções algorítmicas e datasets altamente controlados. Do lado cultural, o público tende a procurar o estranho, o inesperado, o “erro fascinante”. A estética surrealista ganha valor, logo a eliminação não interessa. Citton (2014) propõe pensar a atenção como ecologia partilhada. Nesta perspetiva, o estranho e o perturbador modulam essa ecologia: absorvem energia perceptiva e redistribuem-na segundo a lógica das plataformas, saturando o espaço coletivo de dissonância e choque. A máquina poderia excluir o surreal; a cultura que a utiliza programa o aparelho a produzir o que melhor circula. Federico Campagna (2018), em Technic and Magic, vai mais longe: a técnica mais do que executar instruções, instaura um regime de realidade. A tendência da IA para o surreal exprime esse regime de mundo em que o real se funde com o artificial e a imaginação maquínica se naturaliza.
A atenção organiza-se através de métricas e ensaios contínuos: ranking por probabilidade de clique e tempo de visionamento, cold starts com reforço da novidade, ciclos de recomendação que promovem conteúdos de interrupção perceptiva elevada. O estranho age como operador logístico: prolonga dwell time, desencadeia comentários, ativa partilhas. Em ciclos de teste, a retenção aos 3 e 10 segundos tende a subir com interrupção perceptiva; o sistema reencaminha peças semelhantes, reforçando a linha editorial do insólito.
Walter Benjamin (2012) advertia que a técnica fetichiza: transforma processos históricos em aparência de neutralidade. Vilém Flusser (1998), em Ensaio sobre a Fotografia, acrescenta que os aparelhos ocultam programas e obrigam a jogar segundo regras invisíveis. A produção imagética por IA opera nesse regime: as imagens parecem naturais e inevitáveis, enquanto condições materiais, datasets, trabalho invisível, consumo energético, permanecem opacas, encobertas pela superfície fascinante do estranho.
Quando se fala em surrealismo da IA, não basta pensar em erro ou falha técnica. O que emerge dessas imagens é a sensação de que a máquina sonha. Trata-se de um sonho sem sonhador, de um inconsciente não humano, ainda que composto de resíduos humanos. Donna J. Haraway (2022), em Um manifesto ciborgue | O manifesto das espécies de companhia, propõe a figura do cyborg para pensar estes cruzamentos: nem natural nem artificial, mas híbrido em que a distinção perde sentido. A IA gera imagens que parecem vir de um inconsciente coletivo maquínico porque recombina fragmentos da memória visual, rostos, gestos, objetos, estilos, sem narrativa linear.
A estética ganha densidade quando pactua com documentação e responsabilização. Datasheets for Datasets (Gebru et al., 2018) e Model Cards (Mitchell et al., 2019) esclarecem proveniências, lacunas e riscos; cartografias como o Nooscope Manifesto (Pasquinelli & Joler, 2020) expõem cadeias materiais, trabalho invisível e dependências energéticas. A partir daqui, curadorias assumem métricas de diversidade e fairness, auditorias regulares e relatórios de impacto sociotécnico, reconfigurando a experiência do estranho.
Federico Campagna (2018) distingue entre o realismo técnico, onde a realidade é sistema calculável e repetível, e a magia, onde a linguagem cria mundos. A IA situa-se nesse limiar: tecnicamente não tem interioridade, mas as suas produções são interpretadas como se viessem de um interior. As imagens parecem mensagens de um inconsciente não humano, um “outro” radical que nos fala através da estranheza.
Deleuze & Guattari (2004), em O Anti-Édipo, introduzem a ideia de máquinas desejantes: sistemas que produzem fluxos, cortes, recombinações incessantes. A IA não sonha porque deseja; sonha porque a sua lógica de produção é homóloga ao fluxo do desejo, associativo, fragmentário e perturbador. O surrealismo maquínico traduz visualmente esse processo.
Há ainda uma dimensão política: este inconsciente maquínico surge saturado de preconceitos, imaginários coloniais, estereótipos de género e raça presentes nos datasets. Cada imagem estranha exprime um inconsciente coletivo histórico filtrado por algoritmos. O surrealismo da IA é sintoma social.
Se o inconsciente maquínico emerge como colagem de resíduos culturais, importa ver que resíduos e como carregam história política. Achille Mbembe (2017; 2019) mostra como o poder moderno se exerce através da gestão desigual da vida e da morte. Os datasets reproduzem desigualdades: corpos racialmente discriminados, femininos ou dissidentes aparecem distorcidos, hipersexualizados ou marginalizados; corpos normativos estabilizam como padrão. Sara Ahmed (2014) argumenta que emoções circulam como forças que consolidam fronteiras sociais. O inconsciente maquínico absorve medo, desejo e repulsa e devolve-os em imagens que reforçam estereótipos. A política do inconsciente maquínico produz-se como síntese de colonialismos passados e presentes, de géneros hierarquizados e de afetos socialmente distribuídos. O surrealismo da IA torna-se, assim, também sintoma de uma necropolítica digital.
Num primeiro cenário, uma mão prolifera dedos e produz hesitação perceptiva; comentários disparam, partilhas multiplicam-se e o watch time sobe com a tentativa de decifração. O traço técnico aponta para guidance elevado e dados heterogéneos de mãos, combinação propícia ao deslize anatómico que fascina. Noutro cenário, um pipeline para radiologia ou produto trabalha com controlnets, guias anatómicos e dataset estritamente curado; a métrica central migra para precisão e erro funcional, a fantasia recua e emerge uma confiança operativa. Para ler casos, serve um protocolo curto: (1) objetivo (circulação vs. precisão); (2) restrições técnicas aplicadas; (3) métrica de êxito (partilhas/retensão vs. erro funcional).
O surrealismo maquínico designa a recombinação estatística que o olhar lê como profundidade; o automatismo maquínico aproxima-se formalmente do automatismo psíquico e opera sem interioridade; a ecologia da atenção descreve o tecido de captação e redistribuição que dá tração ao insólito; os resíduos culturais marcam os dados e orientam afetos; e a síntese necropolítica aparece quando estética e governação diferencial de vidas convergem no circuito de imagens. Este léxico, usado em fluxo, estabiliza a leitura e sustenta a proposta crítica.
O surrealismo histórico apresentava-se como gesto de emancipação: tentativa de libertar o imaginário das convenções da razão e da moral. O surrealismo maquínico emerge num regime de captura: as suas imagens inscrevem-se numa ecologia da atenção moldada por plataformas digitais, onde o estranho funciona como motor de circulação. O inconsciente maquínico expõe a gramática de captura do nosso tempo e abre um campo de intervenção estética e política. Curadorias transparentes, métricas de diversidade e dispositivos de auditoria transformam o estranho de motor cego de circulação em laboratório público de imaginação partilhada.
Referências
Ahmed, S. (2014). The cultural politics of emotion (2nd ed.). Edinburgh University Press.
Benjamin, W. (2012). Sobre arte, técnica, linguagem e política (M. A. Cruz, M. L. Moita, & M. Alberto, Trads.). Relógio D’Água. (Obra original publicada em 1936)
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