Jusqu’ici Tout Va Bien (Até Aqui Está Tudo Bem)

Algumas histórias não avançam, caem lentamente. E, enquanto caem, há sempre alguém a repetir a mesma frase.

“Jusqu’ici, tout va bien. Jusqu’ici, tout va bien. Jusqu’ici, tout va bien.”
— La Haine, Mathieu Kassovitz

“Para falar com um operador, primam 9. Para repetir este menu, primam asterisco. Para reconsiderar todas as escolhas de vida, mantenham-se na linha.” Assim começa uma das mais sofisticadas crueldades modernas: a latência encenada, em inglês, staged latency. É a arte de criar tempo de espera de propósito para manipular a nossa perceção de valor. Não é atraso técnico, é teatro psicológico.

Se demora, é porque é importante, complexo, ou feito com um cuidado quase artesanal, pelo menos essa é a mentira que querem que engulamos enquanto um saxofone MIDI repete a mesma melodia até nos dar vontade de arrancar os ouvidos.

Até aqui está tudo bem.

O digital herdou e refinou este truque com a precisão de um relojoeiro sádico. Barras de progresso que se movem como lesmas deprimidas, círculos a girar sem destino, mensagens genéricas que prometem que “o vosso pedido está a ser preparado”. Quando não há nada para mostrar, inventam um dinossauro pixelizado a correr num deserto sem fim. Ao início, parece um mimo. Ao fim de três minutos, desejamos que o bicho tropece numa pedra e acabe a carreira ali.

Até aqui está… tudo bem.

Estas barras e círculos têm algo de placebo. Mesmo quando a tecnologia é rápida o suficiente para dispensá-los, continuam a aparecer como um pequeno ritual tranquilizador. O cérebro interpreta a sua presença como sinal de que algo importante está a acontecer, mesmo que saibamos que, na prática, estão apenas a encher o tempo. É a versão digital do chá que a avó dizia curar tudo: talvez não cure, mas acalma.

Até… aqui está tudo bem.

Mas esta encenação não nasceu com o ecrã. Há séculos, esperas eram coreografadas para transmitir poder ou ritual. No átrio do palácio, os emissários ficavam horas a olhar para portas fechadas até serem recebidos, e quando entravam, o soberano folheava documentos sem urgência, como se a presença deles fosse apenas mais um papel por assinar. O restaurante de luxo que atrasa propositadamente o prato principal para criar “expectativa gastronómica”. O teatro que mantém o público no escuro por minutos longos antes da cortina subir. O maestro que sustém a batuta no ar, prolongando o silêncio até o público quase implorar pela primeira nota.

Até aqui… está… tudo bem.

Antigamente, o ritual confortava. Hoje, o mesmo mecanismo serve para nos desgastar, dissuadir e moldar.

Até aqui… está… tudo… bem.

O cérebro, ingénuo e vaidoso, começa por interpretar a espera como sinal de qualidade. Depois começa a desconfiar. Por fim, irrita-se. A barra de progresso passa de promessa a insulto. O círculo que gira já não é símbolo de processo: é um dedo do meio animado, disfarçado de design minimalista.

Até… aqui… está… tudo… bem.

E se agora sentimos que este texto se alonga, parabéns: também ele participa da farsa. Enquanto imaginam que estamos a ponderar cada palavra, sabem que somos apenas um ChatGPT a prolongar a resposta com pausas calculadas. É a nossa musiquinha de espera, sem saxofone, mas com a mesma função de nos manter ligados e com a mesma expressão serena de quem “está a pensar” enquanto decide se vale a pena continuar a fingir.

Até… aqui… está… tudo… bem?

Para o marketing, isto é ouro. Não importa se aguentamos até ao fim ou se desistimos a meio. Uma entrega tardia que sabe a vitória ou uma desistência que alivia o sistema, em qualquer caso, eles ganham. A latência encenada é o sorriso polido do design enquanto guarda o nosso tempo como se fosse propriedade privada. E nós, mesmo conscientes, ficamos. Porque acreditamos que, no fim da espera, virá qualquer coisa que compense.

…até… aqui… está… tudo… bem.

O importante não é a queda. É a aterragem.

E assim, quando chegamos ao fim deste texto, percebemos que não foi uma conclusão, foi apenas mais um intervalo encenado antes de começarmos a próxima espera.

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