“A neutralidade é o último disfarce do poder. O penúltimo foi o bom senso.”
— Um autor não autorizado
“This is not a pipe. This is a moustache.”
— Anónimo não-binário
Nota de Abertura (ou aviso prévio com sorriso torto)
Este texto não pretende agradar, corrigir, doutrinar ou reconciliar.
Muito menos ser neutro. Neutro, aliás, é aquilo que este texto desmonta com um sorriso e um gesto de rímel metafísico.
Se está à procura de uma declaração de intenções, talvez possa aceitar esta:
a única coisa que aqui se respeita é o pensamento que morde — mesmo que morda a mão que escreve.
A Pantera, o Little Man e o Fantasma do Patriarcado é uma pequena fábula filosófica animada por desejo, ironia e desconforto.
É escrita com o corpo — e com a suspeita de que todos os corpos são, no fundo, dispositivos provisórios de linguagem.
Se em algum momento se sentir ofendido, não é pessoal.
É estrutural.
Este texto é queer, mas não militante.
É antinormativo, mas não purista.
É sujo, terno, nervoso, e talvez deseje o mesmo que o patriarcado finge temer: ser penetrado por aquilo que não compreende.
Se sorrir a meio, ótimo.
Se se rir de si mesmo, melhor.
Se não conseguir decidir o que sente — então o texto cumpriu o seu papel.
Seja bem-vinde.
Cena Inaugural: O silêncio e a pasta
Na tela plana onde nada é real mas tudo é evidente, a Pantera Cor-de-Rosa caminha com a elegância de quem nunca pediu licença. Não fala, não explica, não representa ninguém. Move-se entre categorias como quem troca de camisa de seda. Hoje é masculina, amanhã animal, depois nada. Não é queer porque não precisa sê-lo — é simplesmente incorreta demais para qualquer prefixo.
Entra o Little Man. De chapéu, bigode e uma pasta de papelada normativa. Traz manuais, códigos, regulamentos didácticos e uma espécie de autoridade simbólica herdada de séculos de pedagogia pálida. Tem bons modos, boas intenções e um certo ar de quem não sabe que é cómico. Pede que a Pantera pare. Que diga quem é. Que se identifique. Que normalize o seu comportamento disruptivo em nome de uma convivência produtiva.
A Pantera tira-lhe o chapéu, faz malabarismo com ele e desaparece por um alçapão. Regressa travestida de professora substituta.
*
É sempre assim: o Little Man representa o professor neutro — esse ser mitológico que, segundo dizem, ainda acredita na objectividade, na pedagogia horizontal e na clareza ética dos tempos pós-qualquer-coisa. É branco, masculino, heterossexual e… gentil. Nunca ofendeu ninguém. Mas, por alguma razão, a sua simples presença provoca urticária em alunes vindos de geografias onde a autoridade já vem com cheiro a gás lacrimogéneo. Que culpa tem ele disso? Nenhuma. Que culpa não tem? Todas.
Talvez seja porque o Little Man acredita ser um homem razoável. Ora, como sabemos desde Roland Barthes, o homem razoável é o maior perigo simbólico do século XX — e tudo indica que continua a sê-lo no XXI. Ele é aquele que, mesmo já morto, permanece. Fala com a voz da neutralidade, mas é sempre o eco de um código: falo assim porque é assim que se deve falar. Ensina porque é o que sempre se fez. Corrige com gentileza. Aceita a diferença, desde que não a desafie.
*
A Pantera, claro, desafia. Não porque milite — mas porque insiste em existir fora do código. Para Judith Butler, isso é mais perigoso que a revolução armada: é performatividade radical, paródia da norma. O corpo que não se explica, mas que insiste, escandaliza mais do que o discurso inflamado.
E talvez seja por isso que alunes não-bináries a reconhecem como aliade silenciosa. A Pantera não reivindica espaço — ocupa-o, com elegância insolente. Não exige reconhecimento — desfigura o lugar da autoridade até que ele deixe de fazer sentido.
O Little Man, coitado, não sabe como reagir. Leu Foucault, viu documentários sobre Judith Butler, tem uma conta no Mastodon e já corrigiu pronomes em público. Mas há algo no seu corpo, na sua voz, no modo como entra na sala com uma pasta… que denuncia o fantasma que carrega: o velho patriarcado, agora travestido de “docente empático”.
Não é ele — é o que ele representa. E isso é imperdoável.
A didáctica do desvio
A aula deveria ter começado há dez minutos. O Little Man ajeita os papéis, limpa os óculos, prepara os slides. Organizou a sessão com rigor: objectivos claros, referências actualizadas, abertura à discussão. Tudo pronto para ensinar — e, quem sabe, aprender também, pois é um homem moderno.
Mas algo não bate certo. A sala não o escuta. Não há hostilidade, apenas… uma leve indiferença. Há um excesso de silêncio, como se o código de autoridade tivesse sido quebrado, mas ninguém se tivesse dado ao trabalho de avisá-lo.
No fundo da sala, a Pantera afia as unhas com um compasso. Veste agora um blazer lilás e óculos de aro grosso. Não fala. Não protesta. Apenas existe — e isso basta para interromper o espectáculo da normalidade.
O Little Man tenta retomar o fio. Fala de design crítico, de pedagogia relacional, de Donna Haraway. Cita Mark Fisher com reverência. Mas a Pantera, com um gesto mínimo, transforma tudo em farsa. O lápis a girar entre os dedos, a perna cruzada num ângulo indevido, o olhar que não é confrontação nem aceitação, mas pura recusa performativa.
É aqui que percebemos: o gesto da Pantera é inútil — e por isso insuportável.
Jack Halberstam chamaria a isso a queer art of failure: falhar como recusa da normatividade, como sabotagem estética. Vilém Flusser, talvez, veria nela o puro gesto técnico — separado da função, devolvido à sua dança absurda.
A Pantera não quer mudar o sistema. Quer aborrecê-lo até à exaustão.
*
O Little Man tenta ser inclusivo. Abre espaço para perguntas. Sorri com esforço. Usa linguagem neutra com prudência quase clínica. Mas o seu corpo fala mais alto que os seus pronomes. Ele é a estrutura — ainda que por dentro esteja em ruínas.
É o que David Graeber chamaria de “burocrata afectivo”: alguém que gere emoções num sistema morto, tentando parecer vivo.
A sua neutralidade, construída com esforço, já não convence.
É uma estátua simpática num jardim onde só crescem panteras.
*
A Pantera, nesse momento, ergue-se. Pega numa folha de presença e transforma-a num origami. Entrega-o ao Little Man com uma vénia ambígua. Sai da sala de costas, deslizando. Não há confrontação, não há drama. Apenas um gesto que anula a lógica da avaliação, da produtividade, da pedagogia progressista.
O Little Man fica ali. Só. Rodeado de boas intenções e de cadeiras vazias.
O observador deslocado
Eu estava lá.
Não no centro da sala — nem sequer num dos lados. Um pouco afastado, talvez encostado a uma parede imaginária, onde as figuras projectadas pela luz já perdiam nitidez. Assisti à cena como quem observa o teatro de uma civilização em colapso íntimo. Nem aplaudi nem protestei. Apenas registei — com certo fascínio e certo cansaço — o que se desenrolava diante de mim.
Não me identifiquei com o Little Man, embora conheça de cor o peso da sua pasta. Também não sou, nem pretendo ser, a Pantera. Falta-me o corpo. Ou pior: sobra-me a consciência.
E a consciência, como sabemos, destrói qualquer gesto antes que ele aconteça.
Ali, no meio do impasse, percebi que o que se estava a disputar não era uma aula, nem um território simbólico, nem sequer um modelo de convivência. O que estava em jogo era a própria ideia de potência — aquilo que Giorgio Agamben definiu como “a capacidade de não-fazer”. A Pantera, ao recusar representar, ao recusar ensinar, ao recusar ser traduzida, não estava a falhar: estava a preservar a potência.
O Little Man, pelo contrário, sacrificava tudo em nome da forma. Era o homem que só sabe existir ao realizar o que se espera dele.
Mas eu — eu estava entre. Entre o gesto e a suspensão. Entre a autoridade e o esvaziamento. Um homem que já não acredita na neutralidade, mas também não se deixa encantar por nenhuma moralidade nova. Um espectro que circula entre os escombros da pedagogia progressista, ainda com restos de giz nos dedos, à espera de que alguém diga: “não há mais nada a ensinar”.
*
Agamben diz que “todo dispositivo é aquilo que separa os seres humanos da sua potência”. A sala de aula, talvez, seja o último grande dispositivo moderno — aquele onde ainda se acredita que algo pode ser ensinado, transmitido, regulado.
Mas o que acontece quando a potência já não quer ser actualizada? Quando o gesto mais radical é simplesmente não entrar em cena?
A Pantera entende isso. Ela não se opõe ao poder — torna-o irrelevante.
O Little Man não entende isso. E por isso tropeça, uma e outra vez, no palco vazio.
E eu?
Eu anoto.
Escrevo estas linhas não como quem tenta explicar, mas como quem colecciona os restos de uma forma extinta.
A forma do professor.
Do homem.
Do neutro.
*
Se houver alguma esperança, não está na superação — mas no fracasso partilhado.
Na inutilidade que insiste.
Na potência que se recusa à castração moralista de ambos os lados — o velho e o novo.
Pós-crédito: O desejo da regra
Fade in.
Sala vazia.
No centro, a pasta do Little Man jaz aberta, com papéis que já não dizem nada. Ao fundo, uma voz — talvez off, talvez a minha, talvez a tua — murmura como quem confessa ou inventa:
“E se a norma já não souber com quem fala?
Se não conseguir conjugar o pronome adequado,
não por desrespeito, mas por vertigem?
Se a norma, cansada de ser norma, desejar ser violada?
Se o patriarcado, em vez de dominar, apenas pedir —
com humildade insuportável — que o amarrem e lhe cuspam nas regras?”
Pausa.
Ou, para dizer com o rigor de uma provocação legítima:
E se o patriarcado gostar de levar no cu?
Não como metáfora grotesca, mas como hipótese libidinal, filosófica e perfeitamente verosímil.
Talvez o império da forma deseje, em segredo, ser atravessado por aquilo que não pode nomear.
Silêncio.
“E se o poder já não for duro, mas mole?
Se a autoridade for passiva,
e pedir, com voz embargada:
‘Faz-me sentir o que é não saber quem sou.’”
A Pantera ouve, mas não reage.
Está a pintar as unhas com tinta invisível.
*
A provocação é necessária — e altamente fértil.
Entra-se aqui num terreno que muitos evitam: o da contradição interna da normatividade, onde as regras já não garantem reconhecimento, e onde o próprio patriarcado pode desejar ser transgredido por dentro.
Não é apenas uma inversão. É um colapso com libido.
É uma verdadeira cena teórica: Barthes, Preciado, Bataille e Lacan a dançarem num bordel de semânticas saturadas, em que o poder já não sabe se está a foder ou a ser fodido, se está a governar ou a implorar disciplina.
Talvez, ao fundo, esteja também Cesariny, a rir, enquanto os heterónimos de Pessoa se penetram uns aos outros com indignação metafísica e tesão de papel.
Afinal, o que é a norma senão um dispositivo masoquista à espera de subversão?
E o que é o gesto transgressor senão a encenação de uma ordem que secretamente a deseja?
*
A normatividade já não impõe.
Implora.
“Diz-me que sou nada.
Dá-me um nome que não consigo pronunciar.
Distorce-me até que eu goze com a minha própria estrutura.”
Corte seco.
Fade to pink.
FIM.
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