O Mancha Negra não tem número de contribuinte

Crítica animada ao trabalho invisível, ao design precário e à falência do feitiço produtivo

Há uma cena repetida ad nauseam nos arquivos da Disney: Mickey Mouse, de mangas arregaçadas, a cumprir mais um turno. Um dia é aprendiz de feiticeiro, noutro maquinista de comboio, noutro ainda empregado de mesa ou técnico de laboratório. Mickey não tem profissão — tem funções. Não tem currículo — tem papéis. É, por excelência, um corpo animado ao serviço de narrativas alheias. Uma figura laboriosa que nunca questiona para quê.

O seu valor é o da disponibilidade absoluta — um trabalhador sempre em modo pronto, sem salário, sem férias, sem corpo que envelheça. A repetição é infinita, a alegria é implícita. Como diria Walter Benjamin nas suas Passagens, trata-se de uma fantasmagoria do trabalho: uma construção imaginária que torna o sofrimento suportável e a exploração desejável. No reino da fantasia, o trabalho não é alienação — é aventura, é moral, é destino. A maquinaria ideológica é tão subtil quanto eficaz: ensina-se desde cedo que trabalhar é a forma de merecer existir.

Mas olhemos com mais atenção para este cenário “animado”. Tiana, a heroína de The Princess and the Frog, representa o modelo pós-escravatura da cidadania produtiva: uma jovem negra, impecavelmente disciplinada, que abdica do amor e da dança para abrir um restaurante. Trabalha em dobro, dorme pouco, não reclama. O seu sonho é empresarial. A sua realização pessoal depende da incorporação plena na lógica do capital. Como escreve Achille Mbembe, “o corpo negro é admitido no mercado quando se mostra capaz de se gerir como empresa.” Tiana é o exemplo pedagógico do novo humanismo neoliberal: só é livre quem se auto-explora com alegria.

E depois há o Tio Patinhas. Figura arquetípica da avareza, mas com uma aura de respeitabilidade. Ninguém se pergunta de onde vem a sua fortuna. Não é criador, nem inventor, nem operário. É acumulador. Nada em moedas, mas nunca distribui. O seu castelo de ouro é simultaneamente bunker e altar — um espaço de adoração ao valor pelo valor. Patinhas é o deus menor do capitalismo: inquestionável, omnipresente e infinitamente avesso à partilha.

É aqui que entra o Mancha Negra. Phantom Blot, para os anglófonos. Sempre à espreita, sempre nas sombras. A sua figura encapuzada, invisível, quase sem contornos, representa não o vilão — mas o trabalho invisível, o espectro que tudo sustenta, mas nada recebe. O Mancha Negra é o arquétipo dos milhões de trabalhadores e trabalhadoras que limpam os escritórios depois do expediente, que alimentam os modelos de IA com anotações repetitivas, que costuram o que vestimos, que tratam dos corpos doentes sem contrato nem reconhecimento.

Não é a personagem maligna — é o sintoma ocultado da arquitectura produtiva. A opacidade da sua presença revela a regra: só se mostra quem pode ser domesticado.

Como os corpos dos migrantes que aparecem apenas quando servem, e desaparecem quando exigem. Como os assistentes de IA que geram imagens para campanhas de inclusão sem nunca poderem exigir inclusão real.

Como os educadores que sustentam o ensino público com salários indignos, ou os técnicos de saúde que trabalham exaustos entre protocolos e cortes.

A educação, outrora espaço de emancipação, tornou-se fábrica de formatação. Prepara-se para um mercado que já não existe, exige-se atenção para conteúdos que não importam, e medem-se competências como se a vida fosse uma folha de Excel. O modelo pedagógico já ruiu — mas o espectáculo continua.

A escola ensina a obedecer à campainha, a seguir instruções, a esperar permissão. A sua função é criar corpos domesticados para a lógica do rendimento.

No mundo do design — esse universo supostamente criativo e crítico — o jogo é semelhante. As ferramentas de IA são hoje tanto próteses de aceleração como desculpas para desvalorização.

“Não temos orçamento para o teu tempo, mas podes usar o Midjourney.”

“Podes fazer o texto com o ChatGPT, por isso não é preciso pagar tanto.”

O designer torna-se, como escreveu Berardi, um proletário cognitivo: alguém que pensa, mas não pode demorar-se no pensamento. Que desenha, mas não pode questionar o destino da sua forma.

A sua inteligência é desejada — desde que não seja crítica.

Assim se cria a nova fantasmagoria do trabalho criativo: um espaço onde se celebra o impacto social, o design para o bem, mas onde o próprio designer é precário, isolado, substituível por uma API.

Como nos filmes de animação, o espectáculo continua, mesmo quando o operador já caiu do trapézio.

E o Titio Avô (Uncle Grandpa) — essa figura bizarra, meio louco, meio omnipotente — representa o colapso da razão pedagógica. Um educador alucinado, incapaz de dizer “não”, símbolo de uma pedagogia esvaziada de sentido, onde a aprendizagem é entretenimento e o absurdo é método.

É a escola que já só consegue existir se se mascarar de edutainment — TikTok de lousa e PowerPoint com emojis.

Ao lado, Gumball — o gato azul em permanente estado de hiperactividade e confusão — representa o aluno pós-moderno, saturado de estímulos, desorientado por um sistema que finge ensinar, mas apenas administra danos. Aprende-se a falhar com estilo. Aprende-se a sobreviver à obsolescência emocional.

Portugal, neste teatro global, oferece um palco exemplar. “Os portugueses já não querem trabalhar”, dizem alguns empresários entre suspiros indignados. E por isso importa-se mão-de-obra de regiões onde a miséria é estrutural — criando ciclos de dependência, promessas ilusórias e violência legalizada.

A migração económica é romantizada na imprensa e instrumentalizada na contabilidade.

Não se trata de acolhimento — trata-se de optimização de custos.

E no fundo, é sempre o mesmo corpo que se move: o corpo etnicamente marcado / codificado, feminizado, precarizado. O corpo útil, mas invisível.

David Graeber escreveu que grande parte dos empregos modernos existem apenas para sustentar a ficção de que todos devem trabalhar. Chamou-lhes bullshit jobs. Mas há uma versão ainda mais sinistra: os trabalhos que não são bullshit — que são vitais — e que mesmo assim são invisíveis, mal pagos, desvalorizados.

Porque não servem para criar prestígio — mas para sustentar o prestígio alheio.

E agora junta-se a isto o greenwashing e a biotecnologia messiânica. O plástico reciclável. A loja ética. A app que mede a pegada ecológica enquanto destrói a biodiversidade do servidor que a suporta.

Os novos crentes da longevidade biohacker, os apóstolos da carne sintética, os investidores em rejuvenescimento celular. Todos acreditam que podemos salvar o planeta sem sair do carro.

Como diz Žižek, o ecologismo de mercado não quer mudar o mundo — quer apenas tornar a catástrofe mais elegante.

A secularização matou os deuses, mas não curou a ansiedade. A magia saiu pela porta dos fundos. Já ninguém se deslumbra com a força da vida — apenas com a sua capacidade de continuar a produzir mesmo quando dói.

Perdeu-se a aura. A única espiritualidade permitida é a produtividade.

É aqui que voltamos ao Mancha Negra — não como vilão, mas como fantasma estrutural. Ele não rouba, ele sustenta. É a sombra projectada por um sistema que precisa de esconder quem realmente o move.

É o que nos obriga a perguntar: quem treinou o modelo? Quem limpou os dados? Quem varreu o estúdio onde foi feito o filme do herói?

E nesse momento, como nos desenhos animados, damos por nós a andar no ar, para lá do precipício.

Ainda sorrimos. Ainda digitamos. Ainda produzimos.

Mas já não há chão.

Esse instante antes da queda — esse momento brevíssimo em que a percepção ainda não se tornou consciente e continuamos a mover-nos como se tudo estivesse bem — é onde vivemos.

O resto…

é só gravidade.

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