Fragmentos sobre curadoria, arquivo e microdesign
“Mulheres, mesmo na dor, encontramos força umas nas outras. O que o mundo chama de fraqueza é, entre nós, o fio que não se parte.”
Eurípides, As Troianas (c. 415 a.C.)
“Se quiseres ir depressa, vai sozinho. Se quiseres ir longe, vai com um amigo.”
Provérbio Akan, Gana
A amizade é uma forma de relação tão evidente quanto escorregadia. Está presente desde os primeiros vínculos da infância até às alianças da vida adulta, atravessa a intimidade e a política, o afecto e a ética. No entanto, é também uma das formas sociais mais difíceis de definir. O que significa ser amigo? E como se representa — ou até se projecta — a amizade numa sociedade cada vez mais marcada pela fragmentação, pela performance digital e pela precariedade das ligações?
Entre as muitas histórias de amizade que atravessam culturas e tempos, há narrativas que resistem nos gestos e nas vozes do Sul Global. Os Fulbe, pastores nómadas da África Ocidental, contam que dois homens mantinham uma aliança inusitada: partilhavam tudo, até o silêncio do cansaço. Um dia, ao chegarem a uma aldeia estranha, um deles ofereceu ao outro a única cabra que possuíam, para que pudesse trocar por água limpa. Quando lhe perguntaram porquê, respondeu: “um amigo é a parte do corpo que não se vê, mas cuja ausência se sente ao primeiro passo”.
Noutra latitude, no estado de Chhattisgarh, na Índia, jovens mulheres realizam o ritual bhojali, durante o qual trocam plantas sagradas como sinal de irmandade afectiva. A partir desse gesto, tornam-se amigas rituais, nomeando-se mutuamente como bhojali — um vínculo público e não biológico que transforma a amizade em gesto de fertilidade, de cuidado e de pertença.
Estas histórias, distintas mas afins, revelam que a amizade, longe de ser um conceito homogéneo, é uma prática enraizada, feita de matéria e de gesto. Escapa às categorias do contrato ou da família, e habita formas de reconhecimento que, embora invisíveis aos sistemas institucionais, são fundamentais para sustentar o comum.
Curiosamente, mesmo nos domínios da matemática e da ciência das redes, a amizade desafia a intuição. O chamado paradoxo da amizade demonstra que, em média, os nossos amigos tendem a ter mais amigos do que nós. Esta desigualdade estrutural, identificada por Scott L. Feld, revela que a amizade é também um fenómeno estatístico distorcido: os indivíduos mais interligados são mais visíveis nas redes, enquanto os que têm vínculos mais discretos — e muitas vezes mais significativos — permanecem invisíveis. Este paradoxo ajuda a pensar a amizade não como igualdade recíproca, mas como um campo de tensões entre presença e ausência, reconhecimento e anonimato, ligação e marginalidade.
Esta leitura parte da exposição In the Spirit of Friendship (Dom Museum Wien), com curadoria de Johanna Schwanberg, como ponto de partida para pensar a amizade não apenas como tema, mas como forma relacional que atravessa o pensamento, a prática artística e o design. A exposição, que reúne obras de diferentes épocas, geografias e suportes, propõe uma leitura complexa e crítica da amizade: ora celebrando os seus gestos de apoio e cumplicidade, ora revelando os seus reversos — exclusão, hierarquia, poder.
No campo do design, a amizade pode ser pensada como uma gramática subterrânea que molda objectos, espaços, sistemas e experiências. Para além da funcionalidade, o design pode operar como um modulador de relações — sociais, materiais, simbólicas — e convocar formas de estar com os outros baseadas no cuidado, na reciprocidade e na atenção sensível.
Neste contexto, interessa observar como o design — e em particular a curadoria enquanto prática expandida — pode tornar visível o invisível da amizade: as suas hesitações, os seus rituais, as suas ausências. A ideia de publishing futures reforça esta possibilidade, ao pensar a publicação não apenas como um produto final (um livro, uma exposição, um arquivo), mas como um gesto de abertura de mundos relacionais — uma forma de editar vínculos, situações, possíveis formas de convivência.
Num tempo em que a amizade é tanto um desejo profundo quanto uma promessa instável, talvez seja precisamente no seu carácter ambíguo e por vezes contraditório que reside o seu potencial político e poético: um laboratório onde se podem ensaiar outros modos de relação e outras formas de imaginar o comum.
A amizade como forma social aberta
Definir a amizade é correr o risco de a trair. Ao tentar fixar as suas margens, perde-se o fluxo de relações, nuances e intensidades que a constituem. O que distingue uma amiga de uma irmã? De uma amante? De uma cúmplice ou de uma aliada política? A tradição ocidental tendeu, ao longo dos séculos, a conceptualizar a amizade de forma normativa — como uma relação entre iguais, baseada na virtude, na racionalidade ou na afinidade moral. Mas, ao observar com mais atenção os seus usos e manifestações, percebe-se que a amizade é menos uma categoria estanque do que uma forma social aberta: uma relação que se vive, mais do que se define.
Georg Simmel, num breve mas influente ensaio sobre a sociabilidade, descreveu a amizade como uma “forma pura de associação”, uma prática de relação sem objectivo externo, cujo valor reside no próprio acto de estar-com (Simmel, 1910/1997). Esta ideia desloca a amizade de um plano essencialista para um plano fenomenológico: a amizade não é algo que se tem, mas algo que se faz — e se refaz — continuamente, num processo aberto à negociação, ao desencontro e à transformação.
É precisamente essa instabilidade que faz da amizade uma experiência política com enorme potência transformadora. Michel Foucault, em entrevistas dos anos 1980, sugeria que a amizade poderia ser pensada como uma forma de resistência ao biopoder — uma possibilidade de vida que escapa aos modelos normativos de parentesco, sexualidade e hierarquia. “A amizade é uma das grandes possibilidades de criar relações que escapem aos modelos institucionais”, afirmava, defendendo que ela permite “multiplicar os corpos, os afectos e os saberes” (Foucault, 1994/2021, p. 185).
Neste contexto, é possível pensar a amizade no contexto do design de transições — uma forma de desenhar passagens, zonas de contacto, processos de cuidado e ligação entre sujeitos. Em vez de projectar estruturas fixas ou soluções definitivas, o design de transições envolve uma atenção ética e estética aos momentos de mudança, à ambiguidade e à precariedade dos vínculos. Esta abordagem aproxima-se de uma ética feminista situada, que valoriza o concreto e o quotidiano, reconhecendo na vulnerabilidade e na interdependência não uma fragilidade, mas uma base fértil para a transformação das relações.
Hannah Arendt (1959/2006), por sua vez, concebe a amizade como forma política por excelência, ao contrário da noção romântica de que os amigos apenas se refugiam um no outro para escapar ao mundo. Na sua leitura, a amizade permite que dois seres distintos partilhem um interesse comum — o mundo entre eles — e é nesse espaço de pluralidade e diferença que emerge a experiência política. Ao contrário do amor, que tende para a fusão e exclusividade, a amizade, para Arendt, implica reconhecimento mútuo e preservação da alteridade.
Apesar de evocada como valor universal, a amizade raramente se manifesta como relação equitativa ou desinteressada. Em muitos contextos, ela é atravessada por assimetrias de género, raça, classe e capital cultural, funcionando como mecanismo de inclusão e exclusão simbólica. No meio académico e artístico, por exemplo, laços de amizade operam muitas vezes como formas informais de gatekeeping, moldando redes de acesso, visibilidade e legitimação. A afectividade, nestes casos, é cooptada por lógicas de privilégio e reprodução institucional, obscurecendo o facto de que nem todos têm igual capacidade de “estar em relação”. Como lembra Sara Ahmed (2012), o afecto não é neutro: ele circula de forma desigual, reforçando normas e centros de poder. Assim, pensar a amizade como forma social aberta implica também reconhecer os seus limites ético-políticos — as condições materiais e simbólicas que tornam possível (ou impossível) o seu exercício pleno. Ao mesmo tempo que oferece um horizonte de comunhão, a amizade pode também encobrir formas subtis de exclusão, silenciamento e conformismo afectivo.
Contudo, esta visão elevada da amizade como espaço ético e político não é universal. Num estudo sobre os Fulbe, Janosch Schobin (2021) mostra como, em contextos africanos, a amizade pode basear-se na expectativa prática de apoio material, como o empréstimo de bens, sem que isso a torne menos profunda ou verdadeira. A máxima ocidental de que “dinheiro e amizade não se misturam” não se aplica a contextos onde a reciprocidade económica é precisamente o que sustenta a lealdade e a confiança. Da mesma forma, a amizade entre mulheres foi durante séculos invisibilizada pela filosofia e pela literatura ocidentais — o que não significa que não existisse, mas apenas que os seus modos de expressão escapavam aos registos consagrados (Bruns, 2006; Delap, 2011). A partilha entre mulheres — no cuidado, na maternidade, nas lutas do quotidiano — constituiu, e continua a constituir, um tecido subterrâneo de resistência e criação.
Deste modo, a amizade revela-se não como um “tipo” de relação, mas como um campo plural de práticas de transição. Pode ser íntima ou política, fugaz ou duradoura, igualitária ou hierárquica, instrumental ou gratuita. Pode nascer de afinidades electivas, de circunstâncias históricas, de projectos partilhados ou de acasos irrepetíveis. A sua força reside precisamente nesta abertura: não se define pela forma, mas pela intensidade e pela atenção que convoca.
O design das relações
Pensar a amizade à luz do design implica deslocar o foco da forma para o processo, da estrutura para a transição. Se a amizade se constrói em gestos mínimos, afectos partilhados e cumplicidades que não se inscrevem em molduras institucionais, então talvez seja no campo do design de transições que melhor se compreenda a sua dinâmica. Trata-se de um design que não visa apenas resolver problemas, mas transformar as condições de vida — operando nas micro-relações, nos ritmos, nos modos de estar com os outros.
Tony Fry (2011), em Design as Politics, propõe um entendimento do design como acto civilizacional — um instrumento que molda a própria possibilidade de futuro. Para Fry, é necessário passar de um design reprodutivo (que sustenta sistemas insustentáveis) para um design orientado para a transição, que promova deslocamentos éticos, culturais e ecológicos. A amizade, nesse contexto, pode ser entendida como uma tecnologia relacional de resistência ao colapso — uma infraestrutura afectiva onde se desenham alianças, cuidados e modos de habitar o mundo com os outros.
Victor Papanek, já nas décadas de 1960 e 70, alertava para a responsabilidade social e ecológica do design. Em Design for the Real World (1985), insiste na importância de projectar para as necessidades humanas reais — e não para os desejos artificiais gerados pelo consumo. Embora Papanek raramente fale directamente de amizade, o seu apelo a um design comprometido com o bem-estar colectivo pode ser lido como uma convocatória à criação de ambientes mais relacionais, mais sustentáveis e mais justos.
Neste sentido, o design de transições é também um campo político — uma prática de cuidado, de mediação e de atenção relacional, muitas vezes invisibilizada nas narrativas dominantes do design centradas na inovação, na eficiência ou no impacto. É precisamente neste espaço subterrâneo que o pensamento feminista tem desempenhado um papel crucial: ao reivindicar o valor do doméstico, das relações, do invisível e da interdependência como matéria de projecto.
Anne Galloway, em colaboração com Genevieve Bell, explora este tipo de abordagem através de métodos etnográficos e especulativos, onde o design se aproxima da antropologia e da ficção para imaginar futuros relacionais (Galloway & Bell, 2009). O seu trabalho insiste na importância da empatia, da diferença e da incompletude como qualidades fundamentais do processo de projectar. A amizade, nesse contexto, não é um modelo a aplicar, mas uma relação a construir com o outro — humano ou não-humano — num campo de negociação contínua e de disponibilidade mútua.
A esta perspectiva soma-se a abordagem de Bruno Latour (2005), ao propor que os objectos também têm agência: não apenas os humanos constroem o mundo, mas o mundo — técnico, material, simbólico — também nos constrói a nós. Um banco de jardim pode ser um espaço de amizade; uma interface digital pode afastar ou aproximar; uma exposição pode funcionar como dispositivo de partilha e de atenção. Os artefactos, nesse sentido, participam nas coreografias da amizade — e o design, enquanto prática crítica, pode amplificar ou silenciar essas possibilidades.
Este tipo de abordagem é particularmente relevante quando se pensa a amizade para além do individualismo liberal. No Sul Global, por exemplo, é comum conceber os laços sociais através da noção de comunalidade — redes de apoio mútuo, reciprocidade e co-presença que desafiam a separação entre privado e público, entre casa e política. O design de transições, ao operar no quotidiano, pode aprender com estas práticas informais, femininas, populares — com aquilo que Escobar (2018) denomina de “designs para a pluriversalidade”.
Contudo, importa não ignorar o impacto das infraestruturas digitais nas formas contemporâneas de amizade. As plataformas sociais, desenhadas para maximizar o envolvimento e a atenção, impõem modelos específicos de relação: visíveis, rastreáveis, quantificáveis, sujeitas à lógica da exposição e da comparação constante. O design destas plataformas — através de algoritmos de relevância, sistemas de recomendação e interfaces gamificadas — condiciona os modos de estar-com os outros, afectando não só quem vemos, mas como nos relacionamos. A amizade torna-se um gesto mediado por métricas: gostos, seguidores, partilhas, reacções.
Como observa Jenny Odell (2019), “num sistema que recompensa a atenção com dados, até os vínculos mais íntimos tornam-se passíveis de optimização”. A amizade, neste contexto, deixa de ser apenas uma prática relacional para se tornar também um produto algorítmico, sujeito à governança das plataformas. Esta dinâmica gera novas assimetrias: nem todos os laços têm o mesmo valor algorítmico, e os afectos mais discretos ou complexos podem tornar-se invisíveis.
Num cenário cada vez mais mediado por plataformas digitais, torna-se crucial considerar de que forma as infraestruturas técnicas moldam — e distorcem — as possibilidades da amizade. A lógica algorítmica das redes sociais tende a favorecer relações performativas, baseadas na visibilidade, na aceleração e na optimização de interacções, reduzindo a amizade a métricas superficiais. Frente a este panorama, diversas práticas de design crítico e activismo digital têm procurado construir contra‑plataformas: redes descentralizadas, sistemas de comunicação encriptada, servidores comunitários e espaços digitais autónomos. Secure Scuttlebutt (SSB), por exemplo, é uma rede social peer‑to‑peer descentralizada, onde cada utilizador aloja o seu próprio conteúdo e o dos seus contactos. Não depende de capital de risco nem da monetização dos dados, e valoriza a autonomia e a presença offline (https://scuttlebutt.nz). O protocolo enfatiza a “gossip” — ou partilha descentralizada de informação — como fundamento da confiança local. Já o Hypha Collective (https://www.hyphacollective.co) desenvolve plataformas cooperativas e ferramentas digitais orientadas para a colaboração, a confiança e a regeneração económica, promovendo uma infraestrutura relacional solidária. Por sua vez, Zuloark (https://zuloark.com) organiza-se como um colectivo distribuído de arquitectura e cultura, com hierarquias fluidas, autoria partilhada e uma lógica de co-responsabilidade que contamina tanto os processos como os produtos. Estas alternativas desafiam o modelo dominante de design digital: não colocam o ritmo, a visibilidade ou a eficiência como objectivos centrais. Pelo contrário, propõem ecologias digitais baseadas na lentidão, na confiança entre pares e na hospitalidade relacional — espaços onde os vínculos não são capitalizáveis. Mostram que o design digital não é neutro: pode tanto reforçar o extractivismo afectivo como abrir caminho para formas mais éticas e cuidadosas de convivência em rede. Pensar a amizade no contexto tecnológico contemporâneo exige, por isso, uma crítica aprofundada às infraestruturas hegemónicas e um compromisso com modos de habitar o digital que valorizem o cuidado, a opacidade e a dissidência.
Assim, entre objectos, gestos, espaços e rituais, o design torna-se uma linguagem de relação. Não se trata de representar a amizade, mas de criar condições para que ela aconteça — no tempo, no corpo, no gesto, na partilha. Nesse sentido, o design de transições é também um design da amizade: uma forma de activar ecologias relacionais, sensível à fragilidade, à diferença e à reciprocidade como princípios estruturantes.
Expor e publicar a amizade: Curadoria, arquivo e publishing futures
A amizade raramente se deixa representar directamente. Foge à fixação, resiste à iconicidade, escapa à pose. No entanto, pode ser encenada, convocada ou sugerida por meio de gestos, objectos, imagens e dispositivos que criam condições para a relação. A exposição In the Spirit of Friendship, apresentada no Dom Museum Wien, é exemplar neste sentido: não apenas mostra obras sobre a amizade, mas encena a amizade como uma experiência possível — fragmentária, ambígua, enraizada.
A exposição, enquanto forma de design de transições, pode funcionar como um dispositivo de atenção partilhada, de arquivo vivo e de reconfiguração de afectos. Não se trata apenas de seleccionar obras e organizá-las num espaço, mas de desenhar relações entre autoras, visitantes, discursos e sensibilidades. A curadoria, neste contexto, deixa de ser apenas uma actividade classificatória para se tornar um acto de mediação ética e política — um modo de cuidar da diferença e de desenhar o comum.
Nesta abordagem expandida, a curadoria aproxima-se da ideia de publicação. Como propõe Paul Soulellis (2019), publicar não é apenas tornar algo público, mas criar um espaço partilhável de presença — uma coreografia de vozes, corpos e afectos. O que se publica, neste sentido, não é apenas o conteúdo das obras, mas as relações que elas activam, os ritmos que propõem, os futuros que ensaiam. É aqui que se inscreve a noção de publishing futures.
Publishing futures refere-se a práticas editoriais que vão além do livro e do impresso para incluir exposições, arquivos dinâmicos, plataformas digitais, performances e experiências imersivas. Neste modelo, o acto de publicar torna-se um gesto especulativo e transicional — uma forma de desenhar futuros relacionais, de editar possibilidades de encontro. Esta abordagem rompe com a ideia de um público passivo e propõe antes um visitante-leitor implicado, sensível, por vezes até co-autor do que acontece.
A exposição In the Spirit of Friendship exemplifica essa lógica ao incluir elementos que activam a participação do público: murais onde se pode escrever, postais que se podem enviar, objectos que convidam à troca ou à memória partilhada. São gestos simples, mas que funcionam como pequenas infraestruturas de relação — dispositivos que abrem espaço para que a amizade, no seu sentido mais amplo e imprevisível, se manifeste.
O campo da edição tem sido particularmente fértil na exploração de formas experimentais de amizade, colaboração e cuidado. Iniciativas como Publishing as Artistic Practice (Sternberg Press, 2016), editada por Annette Gilbert, reúnem projectos em que a edição deixa de ser mero suporte de conteúdos para se tornar uma prática crítica e relacional — um espaço de encontro, negociação e mutualidade. Nestes contextos, o acto de publicar aproxima-se de uma coreografia da amizade, onde o design gráfico, a curadoria e a escrita se entrelaçam como actos de hospitalidade e reciprocidade.
No Brasil, projectos como Design Possível e Contracondutas mostram como o design gráfico e editorial pode funcionar como mediação relacional. Design Possível mobiliza comunidades através de design participativo, cocriando soluções que reforçam redes locais de cuidado. Contracondutas articula concepção colectiva e circulação de saberes numa lógica político-pedagógica. Estes exemplos não só materializam laços, como os prototipam, convidando à participação, à oralidade e à valorização de epistemologias do Sul Global — em tudo coerentes com uma amizade que se constrói em rede, no gesto e no afecto.
Estes projectos demonstram que o design gráfico e editorial pode ser um território de afectos e política, onde a amizade se desenha não como tema, mas como método: cooperativo, situado, atento às fricções. Ao tornar visível a rede de relações que sustenta cada publicação — autores, editores, leitores, gráficas, territórios — estes exemplos performam uma ética do comum, do cuidado e da não-linearidade que ecoa o espírito da amizade como aqui pensado.
Silvio Lorusso (2019), no seu livro Entreprecariat, analisa criticamente como os valores do empreendedorismo moldam não apenas a vida laboral e emocional dos sujeitos precários, mas também as ferramentas e plataformas com que se publica. Sublinha como o design editorial — quer na sua materialidade gráfica, quer na sua estrutura técnica — pode reproduzir modelos neoliberais de autonomia, visibilidade e eficiência. Ao trazer estes modelos para o campo da curadoria e da publicação expositiva, torna-se possível pensar como desenhar práticas que resistam a essa lógica e criem, pelo contrário, formas de cuidado, partilha e vulnerabilidade como base de relação.
A curadoria feminista tem explorado este campo com particular intensidade, questionando quem tem voz, quem é representado e como se constroem as relações entre obra, público e espaço. Exposições mais recentes como Monstrous Beauty: A Feminist Revision of Chinoiserie (Metropolitan Museum of Art, 2025), que reinterpreta a porcelana com uma lente feminista e antirracista, ou Connecting Thin Black Lines 1985–2025 (ICA, Londres), sequência da icónica mostra curada por Lubaina Himid em 1985, demonstram como o gesto curatorial pode ser tanto feminista como interseccional. No México, a exposição Plasticidades Encarnadas (Museo del Chopo, 2025) reuniu cinco décadas de arte transfeminina e constituiu-se como um arquivo vivo e crítico que denuncia apagamentos e alarga futuros. Estes projectos, juntamente com iniciativas mais históricas como WACK! (2007) ou Feminist Time (2010), mostram que expor pode ser um acto de resistência afectiva e política, activando memórias suprimidas, redes precárias e alianças inesperadas no espaço expositivo.
Contudo, importa manter uma vigilância crítica sobre os próprios gestos de curar e publicar a amizade. O que se perde quando se tenta expor ou representar esse vínculo? Ao tornar visível o que muitas vezes opera na intimidade, no silêncio ou na confidência, corre-se o risco de estetizar afectos, de instrumentalizar relações ou de submeter à lógica pública aquilo que deseja permanecer opaco. Há amizades que não querem palco, que se constroem precisamente na recusa da performatividade ou da legibilidade institucional. Nesta perspectiva, a curadoria e a edição devem interrogar os seus próprios limites: que zonas de sombra preservam? Que silêncios respeitam? A publicação da amizade, enquanto gesto afectivo, precisa também de aprender a conter-se — a cultivar espaços de ambiguidade, de demora e de resistência à transparência total.
Assim, expor e publicar tornam-se práticas inseparáveis quando se trata de amizade. Ambas implicam uma abertura ao outro, uma hospitalidade formal e sensível, uma vontade de construir mundo a partir da partilha. No contexto do design de transições, estas práticas são centrais: não fixam a amizade, mas tornam possível a sua emergência.
Rituais, objectos e gestos: Microdesigns da amizade
Se a amizade é uma forma aberta de relação, feita de intensidades e transições, então ela também se inscreve — discretamente, mas com persistência — nos objectos e gestos do quotidiano. Entre a carta manuscrita e o banco partilhado, entre o presente simbólico e o toque fugaz, há um microdesign afectivo que sustenta e materializa a relação. Estes pequenos dispositivos — físicos, simbólicos ou performativos — não funcionam como representações da amizade, mas como actos de ligação que a activam, a renovam, a mantêm viva.
Na exposição In the Spirit of Friendship, diversos artefactos funcionam como dispositivos de mediação afectiva. Os cartões postais disponíveis para serem escritos e enviados ultrapassam a lógica da interacção simbólica: activam uma circulação real de linguagem e gesto, prolongando o campo relacional da exposição para além dos seus limites físicos. Outros elementos — como os módulos de assento dispostos em configurações não hierárquicas, os sistemas de partilha de objectos e as imagens que reenquadram retratos convencionais através da performatividade da pose — operam como interfaces relacionais, que convocam o visitante não apenas a observar, mas a implicar-se corporal e emocionalmente. São microinfraestruturas de co-presença e de hospitalidade, que experimentam formas alternativas de estar-com no espaço museológico. Estes artefactos não representam a amizade: activam-na.
Esta dimensão material da amizade aproxima-se do que Donald Norman (2004) define como design emocional — uma atenção às pequenas interacções que nos envolvem afectivamente com os objectos e ambientes. Não é apenas uma questão de forma ou função, mas de experiência: de como os detalhes, as texturas, os ritmos subtis podem convocar memórias, criar ligações ou suavizar distâncias. Um banco curvo que convida à partilha, um presente feito à mão, uma inscrição no verso de uma fotografia — são exemplos de como o design participa nos rituais afectivos da amizade.
Do lado do design especulativo e da investigação baseada na experiência, Bill Gaver e os seus colaboradores introduziram o conceito de cultural probes como uma forma de provocar respostas afectivas e imaginativas em processos de design participativo (Gaver et al., 1999). Ao enviar pacotes com câmaras, mapas ou diários a pessoas comuns, criavam-se situações de abertura e expressão íntima, que davam visibilidade às emoções e gestos do quotidiano. Essa metodologia, mais do que recolher dados, procurava activar uma disposição para o outro e promover um envolvimento situado — um gesto profundamente relacional, onde o design serve como mediador do afecto.
Por outro lado, a filósofa feminista Sara Ahmed, em The Cultural Politics of Emotion (2004), propõe pensar os afectos não como algo interior, mas como formas de orientação relacional: aquilo que nos aproxima ou afasta dos outros, que nos envolve no mundo e nos marca no corpo. Assim, uma amizade pode ser pensada como um campo afectivo em que certos gestos, palavras ou objectos funcionam como pontos de orientação — bússolas emocionais que nos guiam na incerteza das relações.
Nesta perspectiva, o design de transições manifesta-se também nas escalas mais íntimas: no ritual, no presente, no tempo partilhado, no toque, no silêncio partilhado. São esses microdesigns que tornam a amizade visível sem a reduzir, tangível sem a prender. Ao dar atenção a estas formas discretas, torna-se possível compreender a amizade não como uma estrutura fixa, mas como um acontecimento contínuo, que se actualiza através de gestos e artefactos aparentemente simples — mas densos de significado.
A amizade desenha-se, assim, nos intervalos e nos detalhes: numa mensagem inesperada, num copo de água oferecido, num banco que convida a estar, numa caixa guardada há anos. São esses os lugares onde o design pode encontrar — ou reencontrar — a sua dimensão afectiva e ética, não para representar a amizade, mas para a cultivar.
Amizade como futuro prototipado
A amizade, tal como aqui foi pensada, não é uma categoria fixa nem um modelo exportável. É uma forma social instável, que escapa às taxonomias institucionais e às lógicas normativas que organizam os afectos. Vive nas margens, nos intervalos, nos gestos que raramente ganham estatuto político ou visibilidade cultural. A sua força está, precisamente, na recusa da rigidez — na possibilidade de ser simultaneamente íntima e pública, privada e política, presente e projectiva.
É por essa razão que o design — entendido não como estilização de produtos, mas como campo expandido de transições — pode oferecer um território fértil para acolher, dar forma e até prototipar modos de amizade. Não se trata de representar ou codificar a amizade, mas de criar condições para que ela se torne possível: abrindo espaços, desenhando mediações, facilitando relações.
Nesta perspectiva, pensar um design da amizade é também propor uma ética da hospitalidade, da partilha e do cuidado. Trata-se de cultivar dispositivos — materiais, espaciais, editoriais — que não fixem o outro, mas que o convidem; que não regimentem o vínculo, mas que o estimulem. Um banco, um gesto, uma publicação, uma exposição podem funcionar como activadores de presença recíproca, se forem desenhados com atenção à vulnerabilidade e à diferença.
Ao mesmo tempo, há que manter uma vigilância crítica sobre os limites de fazer design para a amizade. Que afectos se perdem quando se tenta estruturá-los? Que relações se empobrecem quando são convertidas em forma? A tentação de sistematizar o que é, por natureza, errante e ambíguo, corre o risco de domesticar aquilo que tem de mais potente: a sua imprevisibilidade, a sua abertura ao acaso, ao desvio, à falha.
Mas pensar a amizade apenas como uma forma de cuidado ou de afecto pode correr o risco de neutralizar as suas contradições. A amizade, enquanto relação social, também é atravessada por assimetrias de género, raça e classe — e por vezes sustenta ou reproduz exclusões subtis. Como lembra bell hooks (2000), “a solidariedade entre mulheres não é um dado, mas um processo — e esse processo inclui confrontar os privilégios dentro das próprias relações íntimas”.
Há amizades que incluem e outras que excluem, amizades que protegem mas também silenciam. Em contextos artísticos e académicos, os laços de afinidade podem operar como formas de gatekeeping simbólico — onde os códigos de pertença são tácitos, e a hospitalidade é condicionada por capital cultural ou redes de poder.
A amizade, portanto, não é isenta de conflito. Pode ser também um campo de negociação, onde o dissenso, a diferença e até a ruptura fazem parte do seu próprio funcionamento. Incorporar esta dimensão dissonante é essencial para que o design da amizade — enquanto ética e enquanto prática — não se torne decorativo ou escapista. Tal como no design especulativo, interessa aqui abrir espaço para amizades difíceis, que não oferecem conforto imediato, mas exigem reposicionamento, escuta crítica e vulnerabilidade partilhada.
Por isso, mais do que projectar modelos de amizade, talvez o mais relevante seja aprender com ela: com o seu modo de existir sem pedir licença, de persistir na fragilidade, de operar sem garantias. A amizade, enquanto prática híbrida e especulativa, oferece um horizonte de futuro não baseado na eficácia ou na inovação, mas na capacidade de estar-com, de sustentar relações não-lineares e afectos não utilitários.
É nesse sentido que a amizade pode ser vista como um futuro prototipado: não um ideal a alcançar, mas um conjunto de práticas enraizadas e experimentais, concebidas a partir do presente. E o design, em vez de fixar essa experiência, pode ajudar a mantê-la em movimento — como quem cuida de uma fogueira acesa num lugar incerto.
Referências
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