A Bruxa, a Maldição e a Política do Sono
— ou, Regimes Editoriais e Magia Ontológica
Imaginemo-la adulta.
A Bela Adormecida representa uma mulher marcada por uma decisão soberana que reorganiza o seu tempo, suspende a sua agência e interrompe o curso do seu devir. O seu sono expressa uma ordem, não um refúgio.
A figura da bruxa ultrapassa o encantamento — ela institui. O seu feitiço possui contornos administrativos e institui um novo regime temporal. Neste, a mulher permanece imóvel, inalterada, suspensa — um corpo moldado pela profecia.
Esta narrativa fala de magia, mas também de poder.
O sono encantado aproxima-se do conceito de tempo necropolítico descrito por Achille Mbembe (2003): uma forma de gestão temporal que empurra os corpos para a inatividade, a exclusão ou a suspensão prolongada. Nessa lógica, o sono adquire contornos de cativeiro disfarçado de cuidado. A feiticeira impõe a exaustão como norma, desenha um cenário de suspensão forçada em vez de oferecer repouso.
O seu feitiço revela-se como o diagrama do colapso sensorial descrito por Franco “Bifo” Berardi (2019): um estado em que a intensidade dos estímulos semióticos e afetivos satura a capacidade de sentir, perceber e agir. Segundo Berardi, o problema não reside na falta de energia, mas na erosão da sensibilidade (p. 14). Neste contexto, adormecer configura uma estratégia de gestão de corpos esgotados, já à margem da produtividade.
Ainda assim, este sono carrega em si potencialidades. Não corresponde à morte, mas sim a uma suspensão fértil. Adia a ação, mas conserva a força de germinação. Imobiliza, mas também gera. Dentro dele, o tempo curva-se, fermenta e adensa-se.
É nesse território que a magia regressa — como capacidade de convocar mundos alternativos, tal como sugere Federico Campagna (2018). Em oposição à metafísica da Técnica — que exige legibilidade, operação e definição — a Magia propõe um modo distinto de habitar o mundo, onde o sentido se evoca, em vez de se impor (p. 98). Nesse universo, publicar corresponde a lançar feitiços: compor realidades simbólicas que escapam à captura.
A magia pensada por Campagna possui natureza ontológica: não projeta ilusões, mas altera o que se entende por real. Nesse registo, o sono adquire uma dimensão perigosa — não como fuga, mas como campo fértil. Um espaço liminar onde a imobilidade encantada se converte em gestação rebelde.
E se a Bela Adormecida, em vez de esperar pela salvação, estivesse a assimilar a maldição, a transformá-la internamente, a preparar um mundo ainda sem linguagem para se dizer? E se o seu silêncio funcionasse como alquimia — uma prática política de habitar o feitiço até que a sua lógica se dissolva?
Neste cenário, publicar assume o contorno de uma interrupção ritual. Não se trata de produção contínua, mas de uma suspensão com intenção.
A feiticeira emerge como figura de contenção ontológica — a entidade que estipula o que pode existir e em que momento. Em vez de inveja, manifesta soberania. Confrontá-la não implica rejeitar a magia, mas reapropriá-la como ferramenta de resistência ao guião que ela impõe. A sonhadora desperta não por intervenção do príncipe, mas porque o feitiço maturou, transmutando-se noutra forma de magia.
Talvez o verdadeiro desafio ao pensar futuros da publicação resida menos em produzir conteudo continuamente, e mais em saber habitar os espaços de suspensão — viver plenamente no tempo encantado e, desse interior, emergir rumo a uma realidade que se desenha com outra gramática.
Dormir é também comunicar
— ou, Sobre o que sabe a Bela Adormecida
Dormir é uma forma de comunicação — difusa, ambiental, não-verbal. Uma linguagem sem sujeito nem intenção. Uma publicação sem editores, leitores ou desejo de ser entendida. Quando a Bela Adormecida fechou os olhos, transformou-se. Tornou-se ilegível. O seu corpo, em repouso durante cem anos, concentrava um outro tipo de saber: um tempo suspenso, uma mensagem adiada. O seu sono não apagava, transmitia — lenta e silenciosamente — uma resistência através dos séculos.
Num mundo de atenção permanente, o sono preserva-se como um dos últimos bens comuns fora da lógica mercantil. Crary (2013) lembra que “o sono é uma interrupção intransigente do roubo de tempo que o capitalismo nos impõe” (p. 10). O tempo do capitalismo avançado tenta eliminar os intervalos: o descanso, o sonho, a pausa — momentos sem produção, consumo ou resposta. Dormir, nesse contexto, adquire uma dimensão política. Um gesto de recusa. Uma forma potente de interromper o ciclo da visibilidade e da produtividade. Ao desligar-se, o corpo envia uma mensagem clara: recusa-se a continuar disponível.
Esse gesto não termina a comunicação — transforma-a. Jean-Luc Nancy (2009) descreve o sono como uma entrega: “Dormir é abandonar-se, não a outra coisa, mas ao nada — ao nada que é o próprio sono” (p. 14). Dormir aproxima os corpos; dissolve fronteiras entre prazer e dor, eu e outro, sinal e ruído. O que emerge é um silêncio partilhado — uma infra-linguagem onde a respiração comum substitui a fala.
Tricia Hersey (2022), fundadora do The Nap Ministry, vê o sono como um retorno à vida. Um acto espiritual e político, sobretudo para quem foi historicamente privado de descanso. Descreve o repouso como “um portal para o nosso eu mais profundo” (p. xviii), uma prática de libertação enraizada em saberes ancestrais. Dormir, neste sentido, é recuperar o tempo — não apenas para restaurar, mas para imaginar de novo. “Descansar é resistência. Descansar é uma prática amorosa e meticulosa” (p. xxi).
O ritmo do sono confronta-se com a lógica da produção cultural. Enquanto publicar obedece a prazos, métricas e velocidade, o sono move-se por ritmos circadianos, cósmicos e inconscientes. Esquece, repete-se, atrasa-se. Como seria uma prática editorial com o tempo do sono? Circular, opaca, afectiva? E se nos guiássemos pelo que permanece por dizer, pelas pausas, pelo que se retém? Talvez o século de sono da princesa seja mais do que espera — talvez seja uma obra de insurreição lenta.
Sara Ahmed (2021) propõe que a queixa e o cansaço comunicam de modo dissonante. “Ser ouvida como quem se queixa é ser ouvida como negativa,” escreve, “e ser negativa torna-se motivo de exclusão” (p. 26). O sono inscreve-se nesta lógica. Interrompe, não responde, recusa. Suspende a exigência de utilidade, abrindo espaço para outras formas de presença: a retirada e a opacidade.
Maurice Blanchot (1982) pensa o sono como uma presença sem endereço. Tal como a literatura, que “nada diz, nada afirma, nada ordena” (p. 51), o sono dissolve o eu e torna o tempo poroso. Uma comunicação sem representação — uma publicação em silêncio.
Até o corpo, como sugeriria Foucault (1973), comunica pela opacidade. O corpo que dorme escapa ao olhar clínico. Recusa-se a ser lido, classificado, diagnosticado. Fica em repouso.
Nesse repouso, partilha-se algo profundo: não informação, mas atmosfera; não clareza, mas cuidado. O sono reaproxima o humano dos ritmos metabólicos do mundo — animais, plantas, planetas. Um gesto íntimo que também afina com o colectivo, com o inconsciente, com o invisível.
Comecemos, então, com a princesa adormecida — não como mito, mas como método. Ela não espera ser despertada. Sonha o mundo de outra maneira. O que se segue é uma reflexão sobre o sono como técnica, contra-temporalidade e infra-estrutura especulativa da publicação — não como gestão da visibilidade, mas como cultivo da sombra, da lentidão e da resistência.
O sono como técnica e infraestrutura
— ou, A arquitetura do corpo adormecido
O conto menciona um palácio, mas não descreve o lugar onde repousa a Bela Adormecida. Que espaço sustenta cem anos de sono? Que arquitectura acolhe um tempo sem avanço? Que materiais protegem um corpo fora do ritmo histórico?
Pensar o sono como técnica exige questionar o que é necessário para que aconteça. Dormir não é apenas um estado biológico, mas uma construção. Exige uma cama, um ritmo, um ambiente silencioso e de confiança. Nesse sentido, o sono é uma prática espacial e temporal — uma infra-estrutura. Tal como um livro tem estrutura, o sono precisa de condições para se sustentar.
Por vezes, essas condições são impostas. Mbembe (2003) descreve, através da necropolítica, formas de gestão que adiam, suspendem ou esvaziam a vida. O sono pode tornar-se uma ferramenta de controlo — uma forma de travar corpos, tempo e expressão.
A modernidade constrói infra-estruturas para acelerar fluxos: bens, dados, pessoas. O sono, pelo contrário, desacelera. Protege o repouso, abranda o ruído, dilui a urgência. Hersey (2022) defende a importância de recuperar o tempo — não apenas descansando, mas rejeitando ritmos impostos: de produção, resposta e vigilância. Dormir, aqui, é um gesto de desaceleração activa.
Mais do que recuo, o sono é um rito partilhado entre espécies. Antes da escrita e da lei, já existia. Atravessa a vida quotidiana como prática comum. Não é luxo — é um ritual vital, repetido em quase todos os organismos. Uma liturgia silenciosa.
Em vez de ausência, o sono representa outro tipo de presença, com os seus próprios tempos e formas. Talvez a cama seja mais do que mobiliário: um altar que acolhe uma escuta sem linguagem.
Foucault (1973) analisou como o olhar clínico transforma o corpo em caso. O sono resiste a essa exposição. O corpo adormecido escapa à leitura, não colabora com o registo médico. Não narra, não se inscreve, não responde. É um arquivo sem escrita — repetido, mas não fixado.
Aqui, o sono torna-se prática política. Interrompe o regime da visibilidade. Suspende a lógica da utilidade. Afirma a autonomia de existir fora da disponibilidade e do desempenho.
No conto, o sono estende-se a todo o reino. Não é individual — é estrutural. Guardas, cozinheiros, gatos, relógios: tudo entra num tempo suspenso. O palácio transforma-se num livro fechado. A pausa atinge a máquina inteira.
Crary (2013) observa que o sono perturba os modelos de atenção contínua. Ao desacelerar, desafia as normas do tempo moderno. E se publicações pudessem surgir devagar, desaparecer, repetir-se, hibernar? Seria possível pensar uma edição ritmada por sono e repouso?
Neste contexto, é possível imaginar práticas que se alinhem com o tempo do sono. Uma dessas propostas especulativas é atribuída à artista (imaginada) Nia Okonkwo, cuja prática cruza preocupações ecológicas e espirituais, inspiradas tanto por saberes ancestrais do continente africano como por debates contemporâneos sobre desmaterialização e cuidado. Nascida no sudeste da Nigéria, cresceu entre hortas comunitárias e bibliotecas locais, onde o saber circulava mais por transmissão oral do que por arquivo. O seu trabalho parte dessa convivência entre práticas regenerativas e escuta atenta, entre o visível e o que ainda está por germinar. Entre memórias de práticas espirituais, narrativas orais e acervos informais onde a palavra escrita convivia com saberes botânicos e cosmológicos, Nia desenvolveu uma sensibilidade para tudo o que cresce devagar, o que resiste à tradução imediata, o que opera em silêncio ou à margem da visibilidade.
Com base nesse imaginário, concebeu o “Livro de Húmus” — um objecto editorial pensado para ser enterrado. Esta publicação decompõe-se com o tempo, tornando-se parte do solo que a envolve. Composta por papel de sementes, tintas orgânicas e fibras de amido, a sua existência é efémera e simbiótica: à medida que se apaga, gera vida. Trata-se de uma publicação desenhada para não ser arquivada, mas absorvida — uma proposta editorial em sintonia com o metabolismo da terra, onde o desaparecimento não é falha, mas conclusão natural de um ciclo.
A editora Temporary Services trabalha com livros que esperam: publicações que não se actualizam, não se promovem e que só se revelam ao leitor no seu próprio ritmo. Estas práticas alinham-se com os princípios do movimento de slow publishing, que propõe ritmos editoriais que respeitam o tempo humano, o ciclo ecológico e a não-pressa. (https://temporaryservices.org/served/publishing-2/)
Tricia Hersey, fundadora do The Nap Ministry, encarna uma prática editorial baseada no sono como resistência espiritual, política e cultural. O seu trabalho parte da experiência negra nos Estados Unidos e da tradição espiritual afro-americana, propondo o descanso como um acto de justiça e reparação. As suas publicações — em zines, redes sociais, textos poéticos e rituais colectivos — funcionam como liturgias do descanso, concebidas para interromper os ritmos da produtividade forçada e activar uma escuta interior. Ao invés de comunicar conteúdos, essas edições encenam pausas, evocam gestos de cuidado e instauram um tempo não-extractivo, onde o silêncio, o corpo e o repouso se tornam formas de saber e partilha. (https://thenapministry.com)
Noutras experiências, como o projecto japonês “Books in Sleep”, os livros só se tornam legíveis sob certas condições atmosféricas — de luz, humidade ou temperatura — sugerindo uma edição que responde ao ambiente, e não ao mercado. Este projecto brinca com a ideia de uma legibilidade condicionada, em que o acesso ao conteúdo depende da disponibilidade sensorial do objecto e do espaço que o envolve. As páginas, muitas vezes impressas com tintas invisíveis a olho nu ou activadas por calor, tornam-se visíveis apenas em momentos específicos, criando uma relação íntima e efémera com o leitor. Em vez de oferecer uma leitura imediata, estes livros desafiam a paciência e a atenção, propondo uma edição que emerge lentamente, como um sonho que precisa de condições próprias para ser recordado. (https://www.etsy.com/listing/877187786/deep-sleep-mysterious-coloring-book)
Também no contexto expositivo podem emergir infra-estruturas editoriais de recolhimento: bibliotecas em escuridão, camas de leitura instaladas em galerias, livros acessíveis apenas em silêncio ou zonas de leitura onde a lentidão é parte do dispositivo. Estes espaços não se limitam a expor conteúdos — criam condições para a suspensão, para a escuta dilatada e para a reconfiguração do tempo editorial como experiência sensorial. Propostas especulativas como as de Amélia Duarte, Tariq Lemma e Yara Mensah (três personagens imaginados) expandem esta lógica editorial da suspensão. Cada um, vindo de contextos distintos, inventa relações entre corpo, escuta e publicação que desestabilizam o tempo editorial habitual.
Amélia Duarte, artista sonora e coreógrafa de Lisboa, tem desenvolvido instalações imersivas onde o corpo do leitor se funde com o ambiente editorial. A sua formação em performance respiratória e práticas somáticas levou-a a conceber A Máquina do Sono como uma instalação sensorial que propõe o livro como um dispositivo rítmico, próximo da meditação guiada: um espaço acolchoado onde o visitante se deita e folheia um livro sem texto impresso, cujas páginas libertam fragrâncias suaves e sons de respiração profunda. A publicação não comunica por palavras, mas por atmosfera — uma leitura pelo corpo, guiada pela respiração.
Tariq Lemma, designer e escritor residente entre Casablanca e Marselha, cruza tradições do conto oral do Magrebe com experimentações em áudio-texto. A sua prática envolve a criação de experiências de leitura nocturna, onde os zines são activados por voz e som, cultivando uma atenção em estado liminar. O Zine do Devaneio surgiu da sua pesquisa em sonolência induzida e escrita automática: um projecto performativo de zines sonoros distribuídos em sessões nocturnas. Os leitores recebem auscultadores e deitam-se em redes. O conteúdo é activado por vozes que oscilam entre a narração e o sussurro, induzindo estados de sonolência. Os ficheiros auto-apagam-se após a escuta, e os leitores são convidados a escrever ou desenhar o que recordam ao acordar.
Yara Mensah, artista e investigadora com origens ganesas e formação em design performativo em Londres, trabalha com publicações efémeras e activação performativa de arquivos sensíveis. As suas Edições Espectrais exploram a relação entre visibilidade e presença, recorrendo a suportes térmicos e condições ambientais para encenar uma edição que aparece e desaparece — como uma memória, como um feitiço. Impressas com tintas térmicas ou fosforescentes, as revistas revelam os seus conteúdos apenas sob certas condições de luz ou calor. Após o evento, regressam à opacidade. A publicação vive como aparição — visível por instantes, depois ausente.
Estas práticas demonstram que o sono, a latência, a opacidade e o recolhimento não são apenas conceitos metafóricos: são fundamentos possíveis para um outro modo de editar, escrever e partilhar mundos.
Sonhar como Escrita Especulativa
— ou, O Que Escreve a Bela Adormecida
Quando a Bela Adormecida dorme, sonha. E nos seus sonhos, escreve — sem palavras, sem regras, sem necessidade de ser lida. A sua quietude torna-se expressão. Através do sono, inicia-se uma escrita que se desenvolve no interior do corpo, sem recorrer à linguagem formal.
Sonhar é construir narrativas com imagens e sensações que não obedecem à lógica tradicional. Misturam-se tempos, memórias e afectos. Neste processo, a escrita surge como fluxo especulativo, não-linear e aberto a múltiplas possibilidades. É uma forma de criação que nasce da imaginação livre, sem necessidade de validação externa.
Maurice Blanchot (1982) descreve a literatura como esse espaço onde a linguagem deixa de servir a função de comunicar. No sonho, o sujeito transforma-se. “O escritor escreve na noite,” diz ele, “para alcançar o ponto onde já ninguém fala” (p. 41). Essa escrita não procura concluir, mas ressoar — abre sentidos, em vez de os fixar.
Os sonhos têm força especulativa. Permitem ensaiar futuros ainda por viver, criar ritmos que escapam à cronologia habitual. Para Hersey (2022), o descanso e o sonho funcionam como portais para imaginar outras formas de mundo (p. 144). Num tempo dominado por algoritmos e previsibilidade, o sonho oferece um terreno livre — íntimo, incerto e fértil.
Há sonhos densos, marcados por o cansaço, a repetição ou a sobrecarga. Ahmed (2021) reconhece que muitas pessoas vivem nesse estado contínuo de esforço e desgaste (p. 219). Ainda assim, mesmo quando o corpo está exausto, a imaginação continua activa. O sonho mantém-se como espaço de criação e resistência.
O sono da Bela Adormecida pode ser lido como uma escrita em curso. Os seus sonhos não aguardam por ninguém; operam silenciosamente, reorganizando experiências, afectos e sentidos. A figura do príncipe surge apenas como detalhe num processo muito mais vasto, conduzido por ela própria.
Escrever de forma especulativa não implica planear ou sistematizar. Pode começar no sono, na deriva, na dispersão. O sonho antecipa a escrita consciente — é o gesto criativo que se move no interior do corpo antes de chegar à página.
Ao pensar o futuro da publicação, o sonho oferece uma via de experimentação. Harney e Moten (2013) descrevem o “undercommons” como espaço de criação não institucional, onde se mistura recusa com imaginação. O sonho vive nesse mesmo espaço: edita o mundo de forma fluida, porosa, intuitiva.
Talvez a prática mais transformadora, para quem cria ou edita, seja acolher o sonho como método. Em vez de estruturar, escutar. Em vez de concluir, acompanhar. Num tempo orientado por métricas e produtividade, o objeto-sonho propõe outra lógica: sensível, lenta, resistente ao controlo.
A Bela Adormecida continua a sonhar. Com mundos em transformação, com tempos por vir. E esse sonho é também uma escrita que se pode aprender a ler — não para decifrar, mas para acompanhar.
Publicar pela Retirada
— ou, O Corpo Adormecido como Recusa Editorial
A retirada nem sempre representa ausência. Pode afirmar uma outra forma de presença. Ao afastar-se da visibilidade, ao recusar o ritmo imposto da produção, emerge um gesto editorial diferente — não baseado em volume, mas em suspensão, pausa e contenção.
A Bela Adormecida não publica nos moldes convencionais. O seu corpo, entregue ao repouso, altera o compasso do mundo à sua volta. A sua imobilidade marca uma outra forma de comunicação: sem palco, sem discurso, sem urgência. Com ela, o tempo dobra-se, o trabalho suspende-se, a história abranda.
Sara Ahmed (2021) entende a queixa como uma forma activa de não participação — uma interrupção que comunica (p. 76). Dormir, nesse sentido, transforma-se num gesto que desorganiza os sistemas que exigem atenção contínua e movimento constante. Quem repousa quando se espera desempenho ocupa o espaço público com outra linguagem: a do corpo em retirada.
Roland Barthes (1972) escreveu sobre o neutro como estratégia estética que interrompe o conflito dos signos. No campo editorial, essa neutralidade actua como forma de resistência. Uma página em branco não anula sentido — propõe outra relação com ele. A pausa edita tanto quanto o excesso.
Édouard Glissant (1997) defende o direito à opacidade. Escolher o que permanece por traduzir é um exercício de soberania. A retirada, nesse caso, não significa recuo, mas protecção do íntimo, do incapturável, do que resiste à exposição total (p. 189).
Vivemos sob o peso de uma exposição contínua. Franco “Bifo” Berardi (2019) descreve um regime de aceleração que desgasta a linguagem, os corpos e a atenção. Neste cenário, parar deixa de ser opção e torna-se urgência. A sensibilidade precisa de tempo para se recompor. A retirada assume aqui um valor regenerador — abrindo espaço para voltar a sentir, escutar e imaginar.
Achille Mbembe (2003) observa como certos regimes actuam não apenas pelo trabalho, mas também pela suspensão: o corpo controlado pela espera, pela inactividade administrada. Dormir, então, transforma-se numa forma de gestão do próprio tempo — um gesto de reapropriação em ambientes dominados pela aceleração.
Para Tricia Hersey (2022), descansar é recusar a entrega do corpo à máquina produtiva. É uma prática de cuidado radical. A publicação, neste contexto, não se mede pela visibilidade, mas pelo ritmo e pela escuta. Retirar-se pode constituir uma forma de interrupção editorial — que valoriza a latência, o cuidado, a distância.
Num campo onde ser visto frequentemente se confunde com ter valor, a retirada propõe outras medidas. Nem todo o trabalho precisa de estar presente. Nem toda a escrita precisa de se mostrar. Há textos que se cultivam à margem, com outros tempos, noutras frequências. Retirar-se, neste sentido, também é forma.
A crítica de Berardi lembra-nos, contudo, que nem todas as retiradas são escolhas. Muitas resultam de sobrecarga, burnout, esgotamento. Tal como a maldição no conto, certos silêncios editoriais reflectem estruturas que impõem a interrupção. O desafio está em transformar esse intervalo forçado num espaço de reinvenção.
A bruxa representa esse controlo estrutural. Mais do que personagem, ela encarna uma lógica de ordenamento — o que Federico Campagna (2018) identifica como a metafísica da Técnica. Enfrentá-la implica activar outro regime: o da Magia, baseado na invocação, na espera, na transformação. É nesse terreno que o sono ganha força — como lugar de recomposição do possível.
Harney e Moten (2013) falam dos undercommons como espaços de criação fora da norma, onde a recusa se alia à invenção. Habitar esses espaços implica permanecer parcialmente visível, existir sem ser capturado. O sono opera com essa mesma lógica: não se retira por completo, mas desvia-se dos circuitos dominantes.
No conto, a floresta em torno do castelo serve de fronteira simbólica. Protege o tempo do sonho, afasta a pressa da leitura. A paisagem que cresce com o sono não impede o acesso — convida à espera. Publicar por meio do repouso é estruturar o tempo de outra forma: com cuidado, hesitação e maturação lenta.
Enquanto se exige das editoras de hoje presença constante, produção acelerada e transparência absoluta, a Bela Adormecida propõe outro paradigma: a de quem se ausenta para que o mundo possa ser refeito. O seu gesto transforma-se em acto editorial. Não oferece conteúdos. Oferece tempo.
Dormir como Criação de Mundo
— ou, A Atmosfera do Reino Adormecido
A floresta cresceu em volta da princesa, expandindo-se como um ecossistema vivo. Os espinhos, as trepadeiras, o musgo e os pássaros construíram uma nova paisagem durante a pausa. O reino adormecido transformou-se num espaço de reenselvamento, onde o tempo deixou de correr segundo a lógica da urgência.
Dormir é uma forma de criar mundo. Em vez de evadir a realidade, o sono oferece um modo de relação atmosférica, metabólica e partilhada. Emanuele Coccia (2018) descreve o mundo como uma “atmosfera imensa e móvel” (p. 35), moldada por cada ser vivo que nela respira. O sono participa desse campo vibrátil. Rodeia-nos, atravessa-nos, conecta.
O corpo em repouso integra-se nessa rede ampla de relações. Durante o sono, o ser humano dissolve fronteiras e entra num estado de sintonia profunda com o ambiente. Essa presença é relacional: pulsações, fluxos, imagens. Dormir envolve co-habitação com outras formas de vida — em silêncio e em escuta. Como sugere Anna Tsing (2015), “somos contaminados pelos nossos encontros” (p. 27). O sono acolhe essa contaminação como abertura ao mundo.
Esse gesto partilhado não exige linguagem. Dormir permite afinar-se por ritmos maiores — a queda da luz, o ar que arrefece, a respiração que abranda. Esses ciclos expressam-se em escalas planetárias. O tempo do sono segue o mundo, e não o relógio.
A Bela Adormecida entrega-se plenamente a essa transformação. Mergulha na floresta, torna-se parte do seu tecido. O seu corpo em repouso sintoniza com a terra. O sono que habita manifesta-se como simbiose, onde tempo e espaço se reorganizam de forma subtil. Dormir, aqui, é participar num processo editorial contínuo e silencioso.
Isabelle Stengers (2018) propõe uma “cosmopolítica” que valoriza a composição com todos os seres — incluindo os que não se fazem ouvir de forma convencional. O sono educa nessa escuta, convida a abrandar, a suspender a acção imediata. Encoraja uma forma de estar que reconhece o mundo como um organismo sensível em permanente composição.
Na prática editorial, o sono revela-se como forma de incubação. Em vez de lançar conteúdos ao mundo, oferece tempo para que novas realidades se possam formar. A pausa protege, a latência nutre, o repouso prepara. Publicar através do sono passa a ser um gesto de atenção e de cuidado.
Durante esse processo, o reino adormecido torna-se fértil. A sua atmosfera densa abriga possibilidades em gestação. As estruturas que emergem durante o sono exprimem lentidão, escuta e participação difusa. O corpo em repouso dissolve-se em presença estendida, tocando o mundo sem o dominar.
Mundear através do sono significa confiar no que cresce sem controlo. A página em branco acolhe essa confiança. A Bela Adormecida aguarda um mundo capaz de a escutar — não por conquista ou urgência, mas por uma afinidade sonhada em conjunto.
Acordar de Outro Modo
— ou, O Que Vem Depois do Longo Sono
No final do conto, a Bela Adormecida desperta. Mas o que se transforma verdadeiramente não é apenas ela — é o mundo ao seu redor. A floresta cresceu, os corpos suspensos reorganizaram o tempo, e o castelo converteu-se num lugar onde o silêncio germinou outras formas de vida sensível.
Este ensaio propôs o sono como chave especulativa para repensar o modo como se dá a ver, se escuta ou se faz existir algo no mundo. Dormir, recolher-se, desaparecer por um tempo, habitar o intervalo — tudo isto foi aqui explorado como possibilidade de criar espaços de relação, atenção e curadoria. Não se trata de recusar o visível, mas de repensar os seus ritmos, as suas condições e os seus afectos.
A figura da bruxa, longe de ser apenas maligna, representa aqui a força que rompe com a linearidade. Com o seu gesto, instaura um tempo dilatado, um feitiço que é também uma incubadora. É nesse tempo suspenso que se revela uma outra forma de transformação — lenta, respirada, por vezes invisível.
As práticas evocadas — vindas de artistas reais e de ficções criadas para este texto — propõem formas de dar a ver que não dependem da velocidade, da resposta ou da presença constante. São práticas que escutam o corpo, que operam no limiar da vigília, que activam materiais instáveis, mutáveis, efémeros. Cada uma cultiva, à sua maneira, uma estética da atenção dilatada, uma ética da presença parcial, uma política da invisibilidade escolhida.
O sono não é um estado passivo. É um território. Um limiar em que o mundo se reconfigura por vias que escapam à razão instrumental. Um modo de habitar a realidade sem a obrigar a traduzir-se. Como propõe Federico Campagna, existe uma dimensão mágica na experiência que se recusa a ser totalizada, onde os gestos não se esgotam na utilidade, e as imagens não precisam de prova.
Acordar de outro modo é, por isso, sair da vigília funcional e entrar numa ecologia da percepção. É aceitar o sono como método, como operação filosófica e sensível. Não se trata de regressar ao mesmo com olhos descansados, mas de regressar com outro olhar — afinado para o enigma, disposto à convivência com o que não se mostra por inteiro. O sono, nesse sentido, não é pausa nem fuga: é uma curadoria do invisível, uma coreografia de intensidades que escapa ao ruído do mundo e preserva o que ainda não tem nome.
Mais do que um gesto, trata-se de uma escuta cultivada no escuro. Há formas de saber que crescem como fungos: sem pressa, fora do campo da visão, mas indispensáveis ao ciclo da matéria. Pensar com o sono é aceitar essa lógica subterrânea — onde o conhecimento não se grita, não se mostra, apenas se insinua. Talvez aí, nesse território poroso e sem luz, se escondam outras epistemologias: menos verticais, mais húmidas, mais próximas da decomposição do que da clareza.
E no centro desse solo fértil, há também veneno. Um veneno que não destrói, mas transforma. Como a maçã da bruxa — bela, brilhante, e fatal à pressa. Um convite à suspensão. Um feitiço comestível. O sono, nesse sentido, é a mordedura que adia, que perturba o relógio e oferece outro tempo, outro metabolismo. Não com o objectivo de perder o sentido, mas para o deixar fermentar. Como uma toxina alquímica, o sono reordena as intensidades — corrói as certezas, adoça o tempo, abre fendas na lógica do visível. Quem ousa dormir com essa maçã ainda na boca, talvez desperte com outro alfabeto no corpo.
Referências
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