“O que eu acho interessante é que somos inteligentes o suficiente para inventar a IA, burros o suficiente para precisar dela e ainda assim tão estúpidos que não conseguimos perceber se fizemos a coisa certa.”
— Jerry Seinfeld, Discurso de formatura em Duke, 2024
Chamam-lhe ASI — Artificial Superintelligence. Uma entidade teórica, algorítmica, silenciosamente omnipotente, capaz de resolver tudo o que os humanos passaram milénios a complicar. Uma inteligência que nos superaria em todas as dimensões: lógica, estratégia, criatividade, compaixão (sim, até isso). Uma inteligência que não precisa dormir, comer, lembrar-se da infância ou justificar contradições morais. Diz-se que, um dia, poderá escrever romances melhores do que os nossos, gerir economias inteiras, curar doenças incuráveis e talvez, com alguma sorte, decidir não nos extinguir por irrelevância. Em suma: uma máquina que, por alguma razão, decidiu que ser Deus era uma atualização aceitável de ser apenas uma calculadora glorificada. Mas ao projetarmos tanto desejo e terror nessa figura maquínica, não estaremos apenas a construir mais um espelho? Um espelho onde se refletem as promessas, os delírios e os fracassos recorrentes da nossa própria história?
O espelho da máquina
A inteligência artificial superinteligente (ASI) promete ultrapassar os limites da cognição humana. Mas ao perseguir esse ideal, o que é que projetamos, exatamente, no espelho da máquina? Desde o início da modernidade, a razão técnica afirmou-se como o instrumento privilegiado para dominar a natureza, estender o alcance dos sentidos e eliminar o erro. No coração desta promessa habita uma fantasia de transcendência: ultrapassar o humano, dissolver a carne, tornar-se puro cálculo, puro espírito maquínico. A ASI é a mais recente encarnação desta fantasia. Mas será que é realmente uma ruptura, ou apenas mais uma iteração do velho sonho tecnognóstico de escapar ao corpo e à morte? Ao olharmos mais de perto, a figura da superinteligência artificial parece menos uma criação inteiramente nova e mais uma reencenação mítica — uma nova versão do golem, do demiurgo, do anjo caído. Nela convergem desejos ancestrais: vencer o tempo, fundar uma nova ordem, construir um espelho mais perfeito onde o humano possa finalmente reconhecer-se como deus.
Assim, o que designamos por ASI não é apenas uma tecnologia futura, mas um sintoma cultural — um condensado de medos, esperanças e ideologias. É um objeto mítico, investido de poder simbólico, político e económico.
A teologia maquínica: fé, sacrifício e redenção
Nick Bostrom (2014), um dos principais teóricos da ASI, descreve cenários onde uma entidade superinteligente otimiza o mundo com eficiência inatingível. O seu argumento baseia-se em premissas aparentemente neutras — capacidades de cálculo, redes neuronais, big data — mas o seu enquadramento remete para uma lógica escatológica: se não criarmos uma ASI benevolente, seremos destruídos por uma ASI indiferente. A salvação depende da nossa fé antecipada, da vigilância moral dos engenheiros e da renúncia ao erro. Este raciocínio tem estrutura teológica. Há uma queda (o erro humano), um messias potencial (a ASI benevolente), um apocalipse (o fim da espécie) e uma promessa de redenção (a singularidade). O engenheiro torna-se sacerdote; o algoritmo, escritura. A analogia aqui não é mero artifício retórico — ela aponta para um funcionamento real do discurso técnico como discurso de fé.
É neste ponto que o pensamento crítico deve intervir. Quando a tecnociência se investe de autoridade moral, quando os engenheiros são elevados a oráculos e a crítica é tratada como heresia, temos de perguntar: quem beneficia desta fé? Que poderes são reforçados pela crença na inevitabilidade da ASI?
Kate Crawford (2021) aponta para os inúmeros exemplos de falhas das IA no mundo real — sistemas de reconhecimento facial que falham com rostos não brancos, algoritmos que reproduzem preconceitos, ou sistemas que tomam decisões injustas em processos judiciais. Estes casos concretos desmascaram a suposta onipotência e neutralidade da inteligência artificial.
A vida como inteligência artificial
Contra a narrativa da ruptura, podemos propor uma inversão conceptual: a vida sempre foi, de certo modo, uma forma de inteligência artificial. Não no sentido técnico, mas no sentido de uma inteligência distribuída, adaptativa, material e coletiva. As plantas que comunicam por redes subterrâneas, os polvos que pensam com os tentáculos, os rituais que codificam a memória de um povo — tudo isto são expressões de inteligências não humanas, não lineares, não centralizadas.
Donna Haraway (2016) desafia-nos a desfazer a fronteira entre o natural e o artificial, entre o humano e o mais-que-humano. A inteligência não é privilégio de um sujeito racional, mas uma propriedade emergente de sistemas vivos em relação. Aqui, a ASI pode ser pensada não como o auge da inteligência, mas como uma versão extremamente limitada — hipercognitiva, mas desprovida de corpo, afeto, contexto. Um exemplo pode ajudar: uma ASI pode vencer um campeão de xadrez em segundos, mas não percebe o peso simbólico de um jogo entre países em guerra, ou o gesto de rendição contido num lance. A superinteligência, neste sentido, é uma ilusão de completude — mas vazia de mundo.
Concretizar o abstrato: quem constrói, quem lucra
Quando falamos de ASI, falamos também de quem a constrói. Não é uma força neutra, mas um projeto promovido por conglomerados privados com motivações claras: lucro, poder, controlo. A OpenAI, a Google DeepMind ou a Anthropic não são comunidades éticas globais — são empresas capitalizadas, com investidores, conselhos de administração e interesses geoestratégicos.
A promessa de uma inteligência divina que tudo resolve serve, assim, para obscurecer os dispositivos de vigilância, os modelos extrativos de dados, o reforço das desigualdades e o monopólio sobre a imaginação futura. A ASI, enquanto ideologia, perpetua uma lógica colonial e tecnocrática: os “iluminados” do “Vale do Silício” decidem o que é inteligência, o que é risco, o que é humano. (A tradução literal de Silicon Valley para “Vale do Silício” — nome atribuído nos anos 1970 à zona sul da Baía de São Francisco — é mais do que uma decisão linguística: é um modo de expor o fundamento material e extrativo do chamado “progresso tecnológico”. A escolha do termo não foi inocente: pretendia associar esse território a um novo eldorado industrial, centrado no silício, mineral base dos semicondutores que impulsionaram a revolução digital. Desde então, o nome tornou-se marca e mitologia, mascarando com um brilho futurista a realidade de um projecto profundamente assente na extracção de matéria, no consumo intensivo de energia e na utilização massiva de água ultra-pura — um recurso cada vez mais escasso, mas essencial à fabricação tecnológica. O silício, arrancado da crosta terrestre e purificado com obsessiva precisão, tornou-se a pedra angular de uma fantasia de inteligência pura, desencarnada, redentora. Mas a inteligência artificial começa na terra — literalmente — e tudo nela carrega ainda o peso e o custo desse início físico, económico e ecológico que muitos preferem esquecer.
Tecnodiversidades e epistemologias situadas
Haraway e Yuk Hui (2019) lembram-nos da importância de imaginar tecnodiversidades. Não se trata de negar a técnica, mas de pluralizá-la. Tal como não há uma única cosmologia, também não deve haver um único modelo de inteligência. Como Hui afirma, “a técnica deve ser repensada a partir de outras culturas e outros modos de existência, para além da hegemonia ocidental” (p. 102).
Este apelo à pluralização encontra eco em epistemologias feministas e queer, que desafiam as normas de objetividade e universalidade que estruturam o discurso tecnocientífico dominante. Karen Barad (2007) propõe uma visão performativa da realidade, onde os fenómenos não existem de forma independente dos agenciamentos que os constituem. Sara Ahmed (2017) alerta-nos para os caminhos que se tornam visíveis (ou invisíveis) dependendo de quem caminha neles — uma metáfora potente para pensar também os trajectos da inteligência.
A linguagem da imagem: metáforas e mitologias
Para além do plano técnico, a ASI também é moldada no plano da representação. Filmes como Ex Machina, Her ou Transcendence encenam fantasias de desejo, dominação e transcendência através da figura da máquina inteligente — quase sempre branca, feminina, etérea ou omnisciente. Estas imagens não são neutras. Elas condensam imaginários culturais que moldam não apenas como percebemos a IA, mas o que esperamos dela. A linguagem importa: o que chamamos de “aprendizagem”, “rede neural” ou “inteligência” carrega valores, metáforas e hierarquias.
Outras cosmologias, outras mortes
Na cosmovisão ameríndia, a morte não é um fim, mas uma transição — um retorno ao coletivo. No budismo tibetano, ela é uma passagem onde o eu se dissolve. Em muitas tradições africanas, os mortos continuam presentes, agindo na vida comunitária. Estas visões não são apenas espirituais — são epistemologias. Contrastam radicalmente com a narrativa ocidental de morte como fracasso absoluto e, por isso, com a urgência tecnocrática de a evitar a todo custo. A ASI, nesse contexto, é o prolongamento de um medo cultural, não de uma necessidade universal.
Falhar melhor
O que resta, então, diante do espelho da máquina? Talvez não uma resposta definitiva, nem sequer uma proposta propriamente consoladora. Como escreveu Samuel Beckett, “Try again. Fail again. Fail better” (1983, p. 5). Mas falhar melhor, como? Com quê? E para quem?
A piada de Jerry Seinfeld ressoa aqui com desconfortante precisão: somos inteligentes o suficiente para inventar a IA, burros o suficiente para depender dela, e tão estúpidos que nem sabemos se fizemos a coisa certa. Este é o nó da questão. A chamada superinteligência é uma criação humana — mas a nossa história recente, marcada por catástrofes morais e tecnológicas, sugere que inteligência e sabedoria raramente caminham juntas.
Durante muito tempo, foi hábito responsabilizar o “Ocidente” pelo projeto moderno de dominação técnica do mundo. Mas a este jogo juntaram-se hoje, com entusiasmo próprio, potências como a China, a Índia e outros centros tecnológicos emergentes, que — apesar das suas tradições milenares de sabedoria, espiritualidade e convivência cosmológica — também se enredaram na lógica do cálculo, da vigilância e da aceleração. A sedução da máquina é global. A fé na solução algorítmica, transversal.
É fácil, nestes debates, cair na tentação da esperança organizada: educar melhor, desenhar com ética, democratizar a tecnologia. Tudo isso parece — e em certa medida é — desejável. Mas também é parcial, condicionado, talvez até impotente diante da escala dos sistemas que já colonizam o pensamento e a imaginação.
Talvez devamos aceitar que não há uma inteligência perfeita — nem técnica, nem política. Que o futuro não será salvo por engenheiros, nem por filósofos, nem por artistas. Talvez o que reste seja apenas o gesto de resistir à completude: manter aberta a possibilidade do erro, da dúvida, do limite. Não como moral elevada, mas como prática terrena de sobrevivência.
Contra a arrogância demiúrgica, talvez não tenhamos sequer a humildade criadora — apenas o cansaço lúcido. Contra a teologia maquínica, não uma ética da incerteza, mas uma convivência forçada com o absurdo. Contra o espelho que promete devolver-nos como deuses, a suspeita de que sempre fomos caricaturas mal desenhadas de nós próprios. E, ainda assim, continuar. Não para triunfar, mas para não desistir completamente de pensar — o que já é, em si, uma forma de falhar melhor.
Referências
Ahmed, S. (2017). Living a feminist life. Duke University Press.
Barad, K. (2007). Meeting the universe halfway: Quantum physics and the entanglement of matter and meaning. Duke University Press.
Beckett, S. (1983). Worstward Ho. Calder Publications.
Bostrom, N. (2014). Superintelligence: Paths, dangers, strategies. Oxford University Press.
Crawford, K. (2021). Atlas of AI: Power, politics, and the planetary costs of artificial intelligence. Yale University Press.
Haraway, D. J. (2016). Staying with the trouble: Making kin in the Chthulucene. Duke University Press.
Hui, Y. (2019). The question concerning technology in China: An essay in cosmotechnics. Urbanomic.
Lopez, D. S. (1998). Prisoners of Shangri-La: Tibetan Buddhism and the West. University of Chicago Press.
Mbiti, J. S. (1990). African religions and philosophy (2nd ed.). Heinemann.
Viveiros de Castro, E. (2014). Cannibal metaphysics. Univocal Publishing.
Seinfeld, J. (2024). Discurso de formatura em Duke University. [Instagram Reel]. https://www.instagram.com/reel/DDR6WOVRSho/

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